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Tudo envolta de volta...

Posted: | Por Felipe Voigt | Marcadores: 0 comentários
Mais uma madrugada e cá estou eu, encostado no meu carro, no mesmo posto a caminho de casa, tomando uma cerveja e olhando para o nada. Bom, não estou exatamente aqui, encostado no meu carro, no mesmo posto a caminho de casa, tomando uma cerveja e olhando para o nada, mas esse texto foi pensado enquanto eu estava encostado no meu carro, no mesmo posto a caminho de casa, tomando uma cerveja e olhando para o nada.

Logo ali à frente, após o viaduto que me leva da minha casa até a casa da minha mãe e ao bar do meu pai, tive talvez o único momento de poesia na minha vida nos últimos meses: uma sacola plástica branca voava no meio da tarde, no meio do caminho, enquanto o céu se escurecia prevendo uma chuva e o sol refletia no escuro asfalto.

Sim, uma sacola plástica de mercado. Contrastando com o asfalto. Incólume, sobrevoando os carros que abaixo dela corriam para algum lugar. Não durou mais do que alguns segundos, mas sua dança no ar e sua sombra no chão me fizeram refletir sobre coisas que não sei porquê acabei refletindo. Uma projeção de liberdade tardia, talvez? Uma necessidade de me desprender de conceitos? Uma simples contemplação do absurdo-nada? Não sei... só sei que desde aquele dia, pensei em escrever um poema. É, foi um momento poético para mim e certamente você não conseguirá entender. Mas a única coisa que consegui pensar desde então foi:

E enquanto voando ela dançava
sua sombra desenhava
labirintos pelo chão

Apenas isso. Há quase alguns meses, semanas passadas, naquela dança de uma reles sacola plástica, o que me fez ficar repetindo comigo mesmo foi essa estrofe. Apenas isso. Não consegui e não consigo fechar um poema em cima disso. Tenho apenas essa coisa que me martela constantemente:

E enquanto voando ela dançava
sua sombra desenhava
labirintos pelo chão

Agora, ao ir buscar minha terceira cerveja no posto, entrei segurando as lágrimas. Pensei que isso tivesse me dado um tempo, tivesse me dado uma folga, talvez, até, ido embora. Mas não: apenas um preâmbulo de três semanas entre minha última crise de ansiedade. Desde então, comecei a tomar um remédio natural calmante para isso e estava servindo a contendo. Mas esse blues, essa melancolia... essa dupla nunca te deixa de fato, meu caro. Simplesmente se acorrenta ao seu âmago e fica ali, esperando uma migalha de uma insegurança, um respaldo de desatenção, um momento mais sóbrio para simplesmente te deixar no velho estado costumeiro de sempre.

Uma dupla de policiais me olham desconfiado. Venho ao mesmo local no mesmo horário há anos, a atendente me conhece e sempre é solícita para comigo, mas a dupla está ali, a me fitar enquanto os observo pela tangente do meu olhar. Isso é normal, as pessoas me olham assim por onde quer que eu ande: mercado, shopping, posto, rua, bar, trânsito, em qualquer lupanar. Às vezes me incomoda, como hoje; no resto do tempo, eu gosto e provoco.

E enquanto eu volto para casa, cantarolando Seagull, do Bad Company e finalmente chorando, para terminar esse texto que escrevi mentalmente encostado no meu carro, no mesmo posto a caminho de casa, tomando uma cerveja e olhando para o nada, penso apenas uma coisa:

E enquanto voando ela dançava
sua sombra desenhava
labirintos pelo chão


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De príncipe a ogros, passando por lobos

Posted: | Por Felipe Voigt | Marcadores: 0 comentários
Quantas histórias você leu onde um lobo era colocado como mau, aquele que chega destruindo lares, aterrorizando crianças e devorando inocentes entes queridos? E em quantas o príncipe encantado era aquele que chegava de cavalo branco para resgatar a pobre mocinha do calvário da história? E os ogros, que são sempre seres repugnantes, mal-educados e dignos de asco? Pois bem. Já parou pra pensar no motivo de tais personagens serem colocados dessa maneira? Qual o intuito dos autores em repassar esse mesmo arquétipo na tríade masculina dos contos infantis?

O lobo mau sempre é a ameaça ao lar. Aquele que chega como terceiro elemento e colocará em risco a estabilidade familiar. Mas o que não contam nos contos é que o lobo faz isso justamente para libertar a mulher da domesticação. Ele sente que a loba dentro dela está sendo ameaçada, tolhida e amordaçada.  Ela está cercada pelo medo, pela fragilidade e pela manipulação. Ele assopra, bate e invade para que ela consiga se desprender de suas correntes morais e aprender a correr livre, de fato. O lobo não quer sua companhia aprisionada, não impõe estacas delimitadoras. Irá trazer seu lado animal à tona, irá afundar em você e resgatá-la de você mesma. Ele não teme suas sombras, ele as conhece. E por conhecer, por não temer e por querer a liberdade, o lobo é mau para aqueles que não são bons. O lobo gera medo pois ele irá te dar coragem.

O ogro é sempre nojento e repugnante pois traz sempre a verdade em suas palavras. O repudiam e o renegam ao limbo do pântano pois não se permite ser apenas um rosto bonito para socialmente ser aceito pelos nobres da realeza. Ele não se guia pelos padrões morais vigentes, se permite ser feio quando se sente feio, sem ligar para os dedos apontados, recriminando sua feiúra. E vai entender quando a donzela precisar chorar sem motivo. Vai saber quando a tristeza se abater por ela também sem motivo. Porque o ogro conhece os motivos, sabe dos medos. O ogro não teme o medo: o convida para tomar uma cerveja e conhecer as razões de sua existência. O ogro é sincero sem te menosprezar, te rebaixar e te manipular. Ele quer sua voz sendo emitida sem medo, sabendo que será ouvida e compreendida. O ogro será asqueroso pois ele expõe as próprias mazelas sem medo da reprovação. Ele não precisa ser aceito pela sociedade: apenas quer ser aceito por você, como ele é!

E o príncipe? Bom, o príncipe é o idealizado, o provedor, o estável. É o mais aceito socialmente, é aquele que a mãe da donzela terá prazer em recebê-lo em seu casebre, pois o nobre garantirá o sustento de sua família. Mesmo que para isso ela ignore os efeitos colaterais dessa relação. O príncipe, ao menor sinal de fragilidade da donzela, se mandará do castelo em cruzadas por novas posses, novas terras. Não porque ele tem poucos bens materiais, mas é porque para ele apenas isso garante o bem-estar da donzela. E porque príncipes não sabem lidar com a densidade de uma mulher. Para ele, apenas basta a posse, o poder sobre ela. Mas não se importa em, de fato, possuí-la. Enquanto ela chora, gritando em silêncio por um colo e para ser vista, o príncipe encoxa uma súdita nos corredores do palácio. E ao voltar para o leito, cumprirá seu papel de homem, sem notar que sua donzela não está ali, apenas seu corpo.

Mas o principal: e a donzela? Por que nunca escutam o que ela realmente tem a dizer? Qual essa necessidade de impor o príncipe a ela, de impor a vida de realeza, cercada por ouro, terras e súditos? Qual a razão de não deixá-la correr pelos campos livres sem cercas, com um lobo ao seu lado e não à sua frente, acompanhando e não guiando? Qual motivo não pode se embriagar em tabernas, tendo ogros a tira-colo para carregar suas ânforas e seus pecados? A princesa é sempre manipulada pelos pais, pelos príncipes, é educada a temer os seres das sombras. Mas ao dormir, depois de ter sido feita mulher por seu príncipe, ela sempre é a última a dormir. E pensa e repensa e ressente. E olha pela janela, acompanha as trevas lá fora sendo iluminada pela lua. E imagina como estão o lobo e o ogro. E ao adormecer, escorre uma lágrima pois precisa do castelo, mas sua vontade era de estar correndo e se embriagando com aqueles seres do mau. Mas ela precisa dormir. Amanha o seu encantado irá exigir que ela esteja bem e feliz.

Pois assim precisam as histórias de fantasias: de finais felizes, com donzelas estabelecidas. E lobos e ogros povoando os sonhos e os pesadelos alheios, pelos mesmos motivos, mas com interpretações diferentes.

Quantos lobos você rejeitou por medo de, finalmente, se ver como você é?
Quantos ogros você deixou de olhar por não querer encarar sua própria verdade?
E quantos príncipes você aceitou apenas por padrões morais e sociais e familiares?


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Ainda é cedo?

Posted: | Por Felipe Voigt | Marcadores: 2 comentários
Eu não sou uma máquina. Mas muitos parecem me ver assim. Quase como se, num apertar de botão, eu começasse a revelar as verdades ocultas, os pensamentos renegados, os sentimentos abafados, as vozes emudecidas.

Mas eu falho. Não sou uma caixa registradora da essência humana, mesmo sabendo que por muito tempo quis me pôr assim e hoje colho as consequências disso. Não tenho ambições além das que sempre deixei claras e falhei na busca por elas. Ocultei ao me expor, reneguei ao sentir, abafei ao tentar gritar.

Nessa busca insana e desenfreada pela exposição não minha, mas da natureza humana – ao menos dos humanos que buscam me cercar –, acabei ouvindo mentiras escusas camufladas de verdades absolutas; provei o gosto da dor alheia, da mais profunda miséria da solidão e da autoflagelação. E, de alguma forma, me esqueci de deixar as migalhas pelo caminho. Ou talvez eu apenas tenha conseguido acender uma vela no canto escuro onde, em vão, tentava me refugiar.

O que me resta, ironicamente, é uma profunda descrença nas relações humanas, perpetuadas por inconvenientes convenções sociais, estipuladas e baseadas em deficientes modelos de cultura e caráter consensual. E seguir, promovendo catarses e resgatando referências e destruindo conceitos. Ao menos assim pensei que seria...

Porque não sou a porra de uma máquina... falho pra caralho... mas ainda assim acerto mais do que esperava acertar. E isso fez de mim um monstro cheio de certezas e absolutismo barato. Que busca na compreensão da dor uma busca insensata por respostas que não me trazem solução alguma. Mas que, ainda assim, acabarão úteis para quem suporta-las.

Os que mais se aproximaram, acabaram se afastando, ofuscados e queimados.
É a lógica irracional da minha vida.


E acho que já até devo ter escrito essas mesmas coisas antes. Enfim...
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Divagações sobre nada a ver

Posted: | Por Felipe Voigt | Marcadores: 0 comentários
Derrubo uma garrafa de vinho esperando que esparrame sobre o chão uma resposta lúcida para esta dúvida que me acomete: como estabelecer um conceito sem criar seu antagonismo?

Vemos pessoas buscando a felicidade extrema, a perseguindo sua vida toda, criando laços e desfazendo relacionamentos, deixando dores e ignorando passados, revendo migalhas e invadindo espaços... tudo por conta de se estabelecer algo que lhe fora repassado.

Mas como limitar a criação da antítese ao próprio conceito? Como se ausentar das consequências de se criar uma filosofia própria, baseada em outras assimiladas em cápsulas mastigadas, prontas para serem digeridas sem efeito colateral?

Quando se acredita no bem supremo e inabalável, cria-se o mal extremo e infindável. Quando se permite a ideia da busca pela felicidade, inevitavelmente se faz também a estagnação da aceitação do status quo miserável e sem perspectiva...

Se você acredita que uma pessoa tem o direito de perseguir sua felicidade, não importa sob qual circunstância, automaticamente cria a brecha para que outros possam, também, optar pela busca da autodestruição.

E é nesse paradoxo que a religião se pauta: oferece a salvação, pregando que deva se abster do pecado; que encontre o bem ao fugir do mal. E mostra o que é o mal, criando assim o reflexo invertido ideal! Ao criticar, por exemplo, um casamento homoafetivo, cria-se a falsa ilusão de que o casamento dito convencional é o ideal a ser buscado.

Porém, há de se ressaltar que os parâmetros são criados baseados em intenções claras de perpetuação de uma doutrina de pensamento, de um ideal de posturas. E que tais doutrinas estabelecem a cultura dominante no pensamento da educação do ser humano por longos e tenebrosos períodos de submissão de caráter e manipulação de reação. Você apenas reage ao que dizem ser passível de reação. E é por isso que o antagonismo do que é certo e errado gera tanta aceitação desenfreada e livre de racionalidade.

Se você cria o conceito ideal, autoriza a contestação do mesmo. Se permite que haja uma ideia dominante, impõe que o parâmetro seja criado com base na contrapartida do que é dito errado.

É impossível se estabelecer parâmetros sem o contraponto te dando as diretrizes. É a velha história: o sal só é salgado porque conhecemos a doçura do mel. Caso contrário, seria apenas um sabor. O problema é que tem muita gente bebendo adoçante a vida toda e critica quem opta por experimentar o fel tão repudiável.
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Nascemos maus e aprendemos a ser bons

Posted: | Por Felipe Voigt | Marcadores: 4 comentários

Certa vez, ainda quando cursava a faculdade de jornalismo, participei de uma dinâmica de grupo que até hoje o tema me faz refletir sobre. Dois grupos foram formados e cada lado tinha de se defender e atacar o ponto de vista do outro. O tema era: o ser humano é bom ou mau por natureza? Passada a primeira rodada, os grupos eram reduzidos pela metade e os papéis eram trocados: quem defendia, atacava e vice-versa, até sobrar apenas duas pessoas.

O exercício era uma excelente ferramenta para que pudéssemos saber pensar nas duas formas de ver um ponto de vista e como quebrar os argumentos do seu oponente ao pensar como ele. Ainda uso isso toda vez que me pego analisando um argumento: ante de atacá-lo, penso em como defendê-lo só para ter outros meios de ataque.

Enfim: o que me trouxe a escrever não foi a dinâmica e sim o tema. O ser humano é mau por natureza. Essa sempre foi a minha defesa. Nascemos maus e aprendemos a ser bons. Passamos uma vida inteira sendo educados, doutrinados e convencidos a fazer o bem. O motivo é simples: o mau já está em nosso código genético. Não se ensina aquilo que é natural em nós.

Veja o ato da fecundação: somos colocados em uma disputa insana, correndo em busca de um único objetivo onde não há segundo lugar. Apenas o primeiro leva o prêmio, aos demais resta a morte. Chegando ao destino, qual a função dos competidores? Rasgar, romper, invadir o óvulo. O ambiente de violência se intensifica e essa carga é acumulada no vencedor.

Depois o processo continua: vem a divisão celular manter o ambiente violento, quando uma célula é quebrada em duas, quatro... Depois de toda a gestação, vem o quadro inverso da fecundação: para ser gerado, precisou romper para entrar; para nascer, precisará romper para sair.

A natureza impõe que o nascimento seja tão brusco quando a fecundação. Há força gerada ao extremo para que o bebê seja expulso de sua casa por onde morou por semanas. E isso só acontece quando a bolsa estoura, fazendo com que não haja outra opção a não ser nascer, ceder àquilo que te força a sair.

Esqueça toda a parte poética da geração da vida: o fato é que nossa capacidade de sermos violentos e maus nasce com a gente. Há todo um esforço social para manter esse instinto escondido, doutrinado, repelido e domado. Igrejas ensinam a dar a outra face numa tentativa de conter o monstro que temos dentro; escolas mostram que é errado responder à violência com outra violência, numa clara tentativa de manter a complacência; governos criam cada vez mais leis para nos proteger daqueles que transpassam os limites e dão vazão ao que sentem.

Pode me achar radical demais, mas veja como você reage a um ato de violência justificável: um pai ou uma mãe que matou o estuprador da filha. Você certamente concorda e diz que faria pior se fosse com você. Ao ver um ato tão visceral, nos sentimos confortados e quase projetamos ali toda nossa raiva e maldade em devolver o mau. Fôssemos bons por natureza, repreenderíamos qualquer ato assim, mesmo que justificável.

Mas se alguém vê um homem devolvendo ao banco uma quantia de dinheiro a mais que surgiu em sua conta, as opiniões mudam e não são unânimes como no caso acima: alguns fariam o mesmo, outros o chamam de burro por não ter ficado com a grana já que o banco tem demais.

Os exemplos seguem: no trânsito, na rua, em casa, na internet... constantemente nos vemos presos à comportamentos maldosos sem perceber. E sempre achamos uma desculpa para eles. O sexo é violento, o amor é violento, a natureza é violenta.

Assim nos moldamos a extravazar nossa violência em competições, em disputas, em tomadas de posses cada vez mais ambiciosas. A ambição é a maneira mais aceita de violência que construímos para aceitar a maldade e justificá-la.

Os atos de bondade sempre são questionados, sempre há muita gente questionando os motivos que levam alguém a agir de maneira bondosa. Mas quase nunca questionamos os atos maldosos, buscamos sempre um argumento que justifique e nos faça aceitar o que foi feito. E aceitamos.

Por isso que todo ato violento nos causa tanto desconforto: uma batida de carro acontecida na sua frente faz emergir aquela sensação ruim; uma briga na rua ou em um bar também. Reacendemos aqueles primeiros momentos nossos onde fomos obrigados a praticar a uma violência e isso nos deixa mal por lembrar-nos quando fomos maus. Ficamos ruins porque aquilo acende algo em nós e que fomos educados a deixar de lado e não ceder.

Talvez venha disso nosso fascínio por grandes ditadores, genocidas, serial killers. Estudamos e analisamos todos, fazemos livros e filmes e teses, tudo em busca da compreensão do que fez com que todos transpassassem os limites sociais. O fascínio, mesmo tendo como base algo cruel, é pela coragem que tiveram ao agir como agiram.

Uma série de TV baseada na vida de Madre Tereza ou Dalai Lama dificilmente teria uma segunda temporada, já que fomos bombardeados a vida toda com o que ali é mostrado. Mas faça um seriado sobre um serial killer e teremos outras edições do mesmo. 


Por fim, você me pergunta: como uma criança pode nascer má? Ela não nasce com essa maldade que estamos acostumados a ver, mas está geneticamente carregada a ser assim. Por isso busca-se tanto a educação, a doutrina e o respeito às leis. Para moldá-la a deixar seu instinto de lado e aprender a como conviver de forma coesa na sociedade.

Deixe uma criança em um ambiente hostil e violento e ela aprenderá muito rápido a agir como o ambiente se mostra. Mas para fazê-la boa e bondosa, serão anos e anos de eterno aprendizado.

Fôssemos bons, não precisaríamos de tantas regras de conduta. Faríamos naturalmente, respeitaríamos às leis não escritas e todos agiriam de forma harmoniosa. Mas precisamos de punições e limites impostos para que saibamos até onde começa nossa maldade e termina nossa bondade.

Pode discordar de mim, mas ninguém te ensinou a odiar alguém que te trocou por outra pessoa. Sim: em alguma vez na sua vida, você quis causar um mau muito grande a alguém que já amou, por exemplo. Você aprendeu a amá-la, mas ninguém te ensinou a odiá-la. Isso veio naturalmente em você. Porque você também é mau. 

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Nossas necessidades de alguém

Posted: | Por Felipe Voigt | Marcadores: 3 comentários

Todo mundo já ouviu isso ou repetiu para alguém: não se pode jogar sua felicidade nas mãos de outro. Que tamanha responsabilidade apenas trará desgaste em ambos os lados. E que só podemos confiar a nós nossa própria capacidade de ser feliz.

Concordo em termos.

De fato, ninguém pode viver de jogar todo seu bem-estar nas costas de outra pessoa, como se isso fosse o único motivo de riso e alívio. E todos fazemos isso alguma vez na vida, principalmente quando a carência e o cansaço bate tão forte à porta que só nos resta sucumbir ao erro da projeção. E o preço a ser pago é bem alto aos envolvidos, acredite.

Mas há exceções. E são elas que aperfeiçoam nosso crescimento e estabilidade emocional. E não há muito o que a outra pessoa possa fazer além de apenas existir e deixar coexistir. E não é que cause dependência: apenas gostamos da sensação causada por aquele ser específico. É como se nos tornássemos melhor ao lado desse alguém, gostamos do que nos transformamos ao seu lado e sentimos falta desse nosso eu quando a outra pessoa se ausenta.

Veja o caso clássico das mães: é quase unânime ouvir que só descobriram a razão da vida apenas após o nascimento dos filhos. Que trouxeram uma carga de alegria e impulso que não tinham antes, mesmo que se considerassem felizes antes dos filhos. Assim acontece com outros casos, em intensidades diferentes. Algumas pessoas são capazes de nos trazer sensações específicas, coisas que outras não são capazes de proporcionar. Um amigo, um parente, um amor, um filho... cada um é capaz de causar em você algo que outros não conseguirão. Então qual o problema em querer buscar momentos felizes com essa pessoa específica?

O problema é que às vezes os lados perdem a mão e exageram na expectativa, tanto na gerada quanto na recebida. Isso assusta, causa dúvidas, gera desgaste e pode anuviar a mente e a emoção por períodos conflitantes. A solução para isso? O diálogo. Franco, aberto, sem deixar nada escondido, expondo intenções, necessidades, falhas e propostas de melhoria. Relações interpessoais são contratos não verbais e precisam de constantes ajustes nos artigos.

Precisar de alguém não é falhar. Precisar de alguém não anula a individualidade e autonomia. É apenas a garantia de anular o medo da solidão, essa sensação aterradora que nos aborda nas esquinas dos pensamentos vazios. Precisar de alguém pode e deve fortalecer nosso caráter individual, já que um olhar de fora sempre é capaz de nos fazer enxergar coisas que tanto relutamos em ver.

Agora veja a ironia: logo eu, tão avesso ao mundo e às pessoas, me pego concordando com Tom Jobim... É realmente impossível ser feliz sozinho.


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O antagonismo do amar

Posted: | Por Felipe Voigt | Marcadores: 1 comentários

Há sempre quem duvide das histórias de amor criadas no cinema, na literatura, na música e nos poemas. Que tudo é idealizado demais por quem sente, que camuflou a sua realidade para transformá-la em um local mais confortável e menos dolorido de se viver, mas que não condiz com o que realmente lhe acontecia. E que se fosse contada pelo outro lado da história, seria menos fantasiosa e mais realista.

Confesso que já duvidei muito também.
Cheguei a descrer na existência de algo assim. Muita idealização, muito floreio para contar o decadente e fadado destino das relações amorosas. Tudo aquilo perpetuado em filmes e livros e músicas um dia morreria. O que viveria seria apenas o registro daquele momento em que tudo era perfeito e o sentimento existia, tenha sido por duas horas ou dois anos.

Mas hoje consigo ver sob a mesma ótica dos autores de tais peças.
Tudo aquilo foi real para alguém, que soube traduzir o que sentia em linhas e palavras e roteiros e artes. Alguém realmente amou outra pessoa a ponto de lhe escrever um livro que virou elemento essencial na história de outras pessoas. Um dia houve quem acordasse completamente envolvido pelo amor e escreveu músicas e compôs melodias que são trilhas de cenas lindas e memoráveis de outros casais. Haverá quem se apaixone completamente e frequentemente pela mesma pessoa, a ponto de usá-la como inspiração para seus filmes que alimentarão a fome daqueles que ainda não saciaram o desejo de se envolver assim com outra pessoa.

E a grande beleza disso tudo é que provavelmente você viverá sem isso por muito tempo em sua vida. Passará pela descrença, voltará a acreditar e pensará ter achado a mesma fonte que foi usada para banhar aqueles que souberam transformar o amor e a paixão em algo perpétuo. Mas verá que se iludiu novamente a ponto de descrer ainda mais e voltar a exorcizar qualquer vestígio disso em você.

Se não for assim, não conseguirá entender e assimilar o efeito de algo assim em sua vida. É preciso quebrar a cara, desistir, amaldiçoar, expurgar a vontade de querer uma relação como essa tão cantada e tão repercutida e tão desejada e tão iludida. Não é fácil de encontrar, não a terá nos primeiros anos de sua vida adulta. Muitos chegam ao fim dela e desconhecem tal existência. Ou encontraram há pouco, tão pouco tempo que não tiveram tempo de concluir se era mais uma ilusão.

Mas existe.

E Vinícius de Moraes estava certo: todo grande amor só é bem grande se for triste. Pois só a plenitude de um amor traz toda a dor da perda eminente mesmo que a perda esteja longe ou inexista. Uma relação que te traga apenas felicidade e alegria e bem-estar se consumirá nas chamas da realidade, pois perderá toda a poesia intrínseca.

Você precisa acordar com o alívio, mas terá de suportar o despertar a angústia algumas vezes. Serão dias de certezas absolutas recheados por horas de medos absurdos. É preciso sentir toda a beleza dos momentos horríveis que a dor te implicará.

Somente assim, com essa balança inconstante do amor que sentirá, é que nunca conseguirá duvidar do que sente por aquela pessoa. Terá plena consciência do que sentirá. E com isso virá todo o peso dos dias tristes e das dores.  É o preço a ser pago.

A dúvida tenta afastar qualquer perigo já que não garante o que se sente. É por isso que buscam a todo custo a felicidade plena: pois sabem que não suportariam a mais tênue tristeza. Mas a certeza purifica e faz aceitar até a dor iminente sem que isso arranhe o sentimento.

A maioria que pagou se consumiu pelo sentimento. Mas viveram aquilo que uma minoria soube traduzir em textos e filmes e músicas e obras e que o restante apenas sonha viver e acham que vivem. Não tiveram medo apesar de temerem. Não definharam em sofrimento apesar de sofrerem. E viveram e souberam viver.

Pois amar é praticar o coletivo dos sentimentos. Sem esperar pelo recibo.
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O pó beberás...

Posted: | Por Felipe Voigt | Marcadores: 2 comentários

Talvez eu seja novo demais para estar nesse estado.

Não sei, não confio muito em quem afirma que o sofrimento tem idade certa para acontecer. Nem que as intensidades sejam diferentes. Tudo é questão de amadurecimento. E isso não vem com a idade. Vem com o quanto você se propõe de experimentar da vida. Pode ser que um homem de 50 anos tenha menos amadurecimento que um moleque de 20. Conheço muita gente fodida com cabelos grisalhos, apagando a própria história para tentar desdenhar do sofrimento alheio como se o alheio sentisse menos do que ele, como se tivesse menos motivos para chorar e para tentar fugir da sua dor. Talvez neles isso também seja uma fuga sem abrigos.

Mas confesso que não achei que estaria nessa aos meus 30. Se bem que se pensar melhor, nunca me imaginei aos 30. Não guardo muito saudosismo do que passei e evito projetar demais meus dias daqui uns anos ou décadas. Há quem viva lá atrás, achando que os melhores anos já passaram – ou os piores. Há quem viva lá na frente, esperando os melhores anos chegarem – ou os piores. Eu me acostumei a viver aqui, nesse preâmbulo de vida, focado mais ou menos nos efeitos do que me aconteceu nos últimos dois anos.

Os últimos dois anos foram fodas. Não me lembro de minha vida ter guinado tanto como depois dos 28. Talvez por isso muitos morrem aos 27: pra completarem um ciclo e para evitar que outro comece, mais pesado, mais denso, mais complexo, menos fantasioso.

Tenho me afastado demais das pessoas. As pessoas me machucam sem saber. Algumas sabem. Outras pensam que sabem. Mas no geral, elas me machucam. É cansativo sair de casa e ter de socializar. Mesmo virtualmente essa prática tem me desgastado. E isso já era um prelúdio nos meus 20. Acho que me mantive coerente em algumas coisas, afinal.

A diferença é que tenho bebido mais. Passei a fumar uns charutos também. Isso tudo era inadmissível há 10 anos. Não bebi nada até meus 20, tirando uma vez aos 14 quando peguei uma lata de cerveja de minha coleção de latas e a bebi quente mesmo, em frente de casa, olhando para a esquina da praça em frente, onde minha paixão adolescente se atracava com seu novo namorado, escondidos na sombra da árvore que se deitava sobre o muro de sua casa. Seu nome era Pâmela e seu pai frequenta o bar do meu pai hoje. Bar que meu velho já possuía naquela época em que bebi a latinha quente. Bar o qual ele tinha acabado de fechar e chegou em casa me pegando com aquela lata na mão. Tomei uma bronca, não foi legal. A cerveja também não estava, acho que já vencida. A paixão também.

Entrei na faculdade aos 18, minhas primeiras doses de tequila foram aos 20 ou 21, não me lembro direito. Duas doses. Ou três. Antes eu bebia socialmente apenas malzebier. Hoje nem consigo sentir o cheiro desse melado. As tequilas foram pagas por um amigo, mas não surtiram efeito. Segui por uns anos ainda apenas na cerveja preta doce demais.

Cultivei uma barba depois de formado. Queria mudar minha cara de universitário. Até hoje a uso e fatalmente a usarei até morrer. A barba virou parte de mim, me sinto exposto demais sem ela – sem falar o quão ridículo fico sem. O cabelo comprido chegou há uns três anos. Já o tive assim dos 9 aos 13, cortei para fazer eletricista de manutenção no Senai, escola que segue moldes militares, aparentemente. Na anterior, o Sesi, também: de toda a escola, apenas eu de moleque tinha os cabelos assim. E era obrigado a mantê-los presos, não importasse onde estivesse. Isso foi motivo de muita briga e idas à sala da diretoria. Algumas vezes, eu ficava no banco esperando a diretora chegar, de tão cedo que eu começa a questionar: “por que as meninas podem deixá-los soltos e eu sou obrigado a prendê-los?”. A resposta era sempre: “Menino, não questione e obedeça”. Alguns anos depois encontrei a mesma diretora pela rua e ela disse que o que fazia era pelo meu bem, para que eu aprendesse a seguir regras. Acho que ela reveria seus métodos se me visse hoje.

Enfim: as aulas de eletricista de manutenção duraram dois meses. Em uma aula inicial, o monitor me perguntou o motivo de estar ali. “Gosto de tomar choque”, respondi. Mentira: sempre odiei choques. Não fiz nenhuma amizade na sala e saia para almoçar sozinho em uma praça ali perto. Não dava pra confiar em alguém que mantinha a camiseta por dentro da calça e a bota sempre bem lustrada e usava óculos de proteção. Essa era a visão geral da escola: soldados pré-moldados para executarem serviços essenciais à sociedade e rostos cuja tal sociedade nunca veria.

Me casei aos 25 e foi quando comecei a beber mais e melhor. Não foi influência da esposa, namorada conhecida na faculdade. Acho que isso já é o suficiente saber sobre ela. Ficou comigo por dez anos e me conheceu menos que qualquer outra pessoa que passou tanto tempo ao meu lado assim. Talvez se você ler outros textos meus aqui me conhecerá melhor do que ela, garanto.

O que me fez beber foi não só a vontade de me acessar mais amplamente: foi sair da casa dos meus pais. Acho que por respeito a eles, não bebia lá. Minhas tatuagens, mesmo, só começaram depois que saí. Meu pai nunca gostou e sempre colocou um peso bem foda nelas: eram coisa de bandido de cadeia. Três meses depois que casei, fiz minha primeira. Hoje estou com nove. Ainda... até o Natal faço a décima.

A madrugada me incentivava a beber e a conhecer o mundo sob outra ótica. Bebia devagar, pra relaxar e me soltar de meus preceitos e preconceitos. Sempre funcionava muito bem. Ainda funciona, mas em outros aspectos que não achei que teria utilidade. Ter uma esposa que não lia nada do que eu escrevia também ajudava.

Depois vieram a poesia e uma paixão de adolescente descoberta quase uma década e meia de atraso - e transformada no grande e único amor que realmente senti da minha vida, com todos os clichês da frase implícitos e excetuando mãe e família, obviamente -, um divórcio, um namoro, uma nova separação, garrafas e mais garrafas de algo que me apagasse e toda minha defesa destruída desde então. 

Agora tenho uma garrafa de uma bebida que nem nome de bebida presta pra ter: aperitivo de malt whisky.
Tem gosto de pó. E se do pó vieste... 
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À direita no final do corredor

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- Ele sempre fala a verdade, por mais que doa.

Assim uma amiga se referiu a mim essa semana. E é basicamente assim que todos me veem: como alguém que não ameniza muito as palavras ao se referir a outras pessoas, principalmente os que te cercam.

Confesso que isso me cansa.

Não é muito bacana ser sempre visto assim, por mais que eu tenha passado a vida toda criando esse caráter e fazendo com que as pessoas ao meu redor se acostumem a isso. Mas na verdade nunca se acostumam.

Já cansei de ver pessoas me procurando, pessoas que não conheço, e dizendo: vai, me manda a real, estou pronta pra paulada. Por conta do blog que criei, isso acontece diariamente e com um peso do caralho. E como não tenho conseguido nos últimos meses atualizá-lo com a mesma frequência que gostaria, isso parece cansar ainda mais. E não consigo mais responder da forma como respondia. Pelo menos não agora. E isso me causa múltiplos questionamentos. Eu preciso de espaço, mas não posso virar as costas para o que comecei.

Parece que há uma tendência ao isolamento causado pelo medo de encarar a verdade da vida. Muitos estão posando de felizes e realizados nas redes sociais, mas tudo não passa de uma máscara construída para ser uma trincheira. Abrigos são bons, são necessários, mas viver sob esse abrigo a partir do medo e da mentira é dos principais problemas modernos.

Eu costumo me isolar do mundo quase todo dia. Não por medo de encarar minha vida, mas talvez por encarar demais a vida dos que me procuram para isso. Querem que eu faça aquilo que não conseguem fazer. E às vezes até consigo.

Cada dia mais tenho menos vontade de conhecer pessoas, de interagir com suas redes de mentiras e suas verdades camufladas. Aprendi a decifrar pessoas com uma facilidade estranha e isso tira toda a magia de desvendar aos poucos cada ser humano. Em uma frase, em um conceito, em uma postura já é possível elencar traços da personalidade e do caráter de cada um que tenho acesso. E em pouco tempo a pessoa me cansa simplesmente por não ser interessante mais.

Já briguei com várias pessoas por causa daquilo que acreditam. Briguei por não concordar e por não serem capazes de defender seu próprio conceito, sua própria crença. Apenas ecoam aquilo que lhes é enfiado mastigado garganta abaixo e reverberam como sendo a verdade absoluta. Não, não é! Há muita gente precisando de tapa na cara pra acordar e não consigo não ser aquele a desferi-lo. Esse é meu grande defeito, aquele que chega a anular minhas parcas virtudes. Eu sei da pessoa insuportável que posso me transformar e a frequência com que ela se apresenta.

Talvez por isso tenha me fechado. Por faltar a graça da descoberta constante e por cansar-me sempre do resultado disso. Talvez por isso eu tenha selecionado meia dúzia de pessoas para conviver, justamente por serem as exceções desta minha regra. São aqueles nos quais que me permito relaxar, sorrir, desfranzir o cenho, me revelar e deixar um pouco de lado a análise de tudo o que fazem e dizem e pensam. E mesmo assim, mesmo amenizando o que sou, eles sentem o peso. Sentem porque é chato, é cansativo, é triste às vezes ter alguém sempre expondo para você aquilo que você já sabe mas ou tem medo de ver ou optou por entrincheirar por ora.

Houve quem conseguisse me desarmar. E o fez com uma facilidade assustadora, tanto para mim quanto para ela. Esse desarme é tão nítido que me sinto quase indefeso por conta disso. Dá medo alguém transpor assim as barreiras e meus corredores. Porque é um caminho só de ida. Caso opte por voltar, não terá como fazê-lo sem precisar quebrar tudo para sair. E ao sair, deixará os escombros para trás. Mas caso fique, terá sempre a sensação de haver novos corredores a explorar. Mesmo para quem está dentro, ainda sou um mistério. Pelo menos é assim que a pessoa sente.

Mas se da vida o que levamos são apenas os momentos, posso dizer que neste momento estou bem próximo do que considero estar bem. Com medo, apreensivo, na expectativa de voltar a respirar. Mas conseguindo segurar e me segurar. 

Por isso não escrevo nada há muito tempo. 
Porque não sei escrever quando estou bem. E quando escrevo, sai isso. Ou seja...


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Aquela primeira gota

Posted: | Por Felipe Voigt | Marcadores: 0 comentários

Você tem uma taça com o mais limpo e fino cristal. Nele, guarda a mais pura e translúcida água que já bebeu. Essa água mata tua sede como nenhuma outra, de uma forma que o faz querer beber apenas dela e tão somente ela.

Ao longo dos dias, pequenas gotas de óleo se formam ao redor, ameaçando cair na taça. Caso caiam, apesar de não se misturarem ao líquido que tanto tenta preservar, você sabe que comprometerá a pureza dele. Mesmo que por mais inofensiva que seja, qualquer uma dessas pequenas gotas poderá transformar sua água em algo comum, daquelas que se encontra em qualquer torneira por aí. Com todo medo e cuidado, você zela pela taça e seu conteúdo.

Mesmo que consiga preservá-la por muito tempo, eventualmente uma gota cai. E você corre tentando salvar a integridade do que sempre matou tua sede. Apesar de não ter afundado tanto, aquela inofensiva gota está ali, boiando em sua taça. Numa tentativa de tirá-la, poderá agravar o problema e comprometer ainda mais o que tenta preservar.

Talvez a melhor maneira seja retirá-la com cuidado, usando uma colher, sem que a pequena gota, mesmo que inofensiva, estrague a pureza da tua água. É preciso cooperação daquele que a retira e daquela que a deixa ser retirada. Há ainda quem tente usar um pouco de detergente, mas isso irá piorar ainda mais, deixando o óleo cada vez mais intrínseco na água.

Essa água é sua relação; as gotas, as pequenas mentiras do dia a dia; a colher, a paciência e atenção de uma boa conversa; o detergente, o ciúme.

Por mais que estejamos todos suscetíveis a pequenas mentiras ao longo de nossa relação com outra pessoa, é preciso entender que eventualmente uma ou outra cairá na sua taça. A diferença está em deixar claro que a gota caiu e que há vontade mútua de retirá-la. Ambos precisam ter paciência no uso da conversa para que possam voltar a deixar essa água com o mesmo gosto de antes, matando a mesma sede de sempre.

Taça e colher precisam trabalhar mutuamente para que essa pequena gota não comprometa toda aquela água que tanto sentem falta. E tentar deixar o detergente de lado, pois se o ciúme começar a camuflar as gostas que caem, todo o resto será em vão.
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Revista com capa solta

Posted: | Por Felipe Voigt | Marcadores: 1 comentários

Uma em cada seis mil pessoas ultrapassa os 100 anos. Foi o que acabei de ler em uma revista antiga que tenho aqui em casa, daquelas que você pega emprestado nos consultórios da vida e sempre se esquece de devolver.

Fazendo uma conta rápida: moro em uma cidade de 300 mil habitantes, logo, estatisticamente, é possível afirmar que 50 deles chegarão ao centenário. Pode ser o que nasceu hoje ou aquele que completou 90 anos ontem. Não importa: o fato é que, caso eu chegue a essa marca, fatalmente chegarei sozinho.

Não conheço seis mil pessoas. Não conheço sequer metade destes prováveis 50 futuros anciões. Das pessoas que faço questão de estarem comigo, metade chegarão aos 100 antes de mim, caso o façam. Das que poderão chegar junto comigo, não completam os dedos de uma mão. Mas isso também não importa, pois não chegarei a tanto. Me contento em chegar na metade com um pouco de consistência hepática e renal.

E qual a razão disso em um texto? Nenhuma.

Apenas pra reforçar que tenho cada dia menos gostado de me aproximar de pessoas. Aliado ao fato de que a tendência é cada dia mais eu me recolher longe disso que tanto me incomoda, a equação acima se torna previsível se vista do meu ponto de vista.

Não tenho conseguido mais gostar de gente. Antes eu tolerava mais, me empenhava em descobrir as incoerências, as contradições, os preconceitos velados e a maneira como abafam isso por conta da eterna aparência conivente e conveniente. Mas me cansei disso também.

Parece que ao se estabelecer padrões onde todos se encaixam de alguma forma, perdi a essência da curiosidade. Não é mais chocante alguns comportamentos pois são previsíveis. E quando você os projeta da pior maneira possível, quando algo mesmo que menor acontece, você estava preparado de alguma forma para aquilo. E deixa de ter o fator surpresa, a novidade, o supetão.

Há dias em que sequer abro a boca, minha comunicação se resume aos meios virtuais. Quase não uso mais telefone para fazer chamadas, apenas para trocar mensagens com uma ou duas pessoas. Quando saio de casa, frequento os mesmos lugares e falo com as mesmas pessoas, o que me dá uma comodidade de saber o que irá me irritar e o que irá me confortar.

Além do bar do meu pai, vou apenas a outros dois bares. pois já conheço os donos e os garçons. Me conhecem, sabem do meu jeito e isso me evita desgaste por causar incômodo àqueles novos que se incomodam com meu jeito. E realmente não ando com saco para lidar com mágoa de pessoas recém-descobertas. As expectativas delas são sempre muito grandes e de alguma forma eu sempre consigo quebrá-las. Não que eu me importe, mas é sempre um desgaste desnecessário.

Quando ando pelas ruas, me sinto completamente à parte. Seja no mercado, no banco, nas ruas ou mesmo nos bares. Me olham como se eu fosse algo diferente, alguém que não deveria estar ali, que destoa do seu velho estilo arcaico de vida. Não me moldei a maioria das convenções sociais, não deixei que costumes e preconceitos ditassem meu modo de agir e pensar. E isso é uma afronta a eles. E a maneira como vivem afronta a mim também.

Ainda assim: qual a razão disso tudo em um papel?

De novo: nenhuma. Talvez devesse parar de ler revistas antigas emprestadas. Ou devesse ter ido tomar banho depois de lê-la. Estranhamente, o chuveiro sempre lava embora meus textos, coisa que deveria ter feito com esse também.

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O que aprender com Gabriela?

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Confesso que não li o livro. Confesso que não me lembro do filme nem da primeira versão da novela. O que lembro é basicamente o mesmo que a maioria: flashes de cenas repetidas exaustivamente em retrospectivas e afins. Mas “Gabriela” voltou e tem algo a nos ensinar. Esqueçamos que a adaptação usa de elementos atuais para assegurar a audiência certa familiaridade e, assim, garantir que volte no outro dia para assisti-la. Vou me ater ao que senti nessas semanas assistindo. Sim, eu gosto de novela.

Uma obra que se passa em meados da primeira metade do século passado de um Brasil colônia não-colonizado, podemos dizer. Retratos de uma sociedade não tão distante se analisarmos pelos aspectos humanos e sociais.

Vemos homens lutando pela conquista do poder sob qualquer custo, não importando o preço. Os tratos e destratos sociais e humanos, as convenções políticas firmadas por conveniência do poder.

Vemos homens letrados em uma condições de quase miséria, se envergonhando por terem apenas a riqueza intelectual, coisa insuficiente para pagar um sorvete à mulher amada. Época em que um poeta era visto apenas como sonhador, aspecto que lhe dava a conotação de ser incapaz de prover uma família, uma fazenda, uma porção de filhos. “Enquanto esse aí sonha e estuda, a gente trabalha”, diria um dos senhores.

Vemos as quengas do bordel serem achincalhadas pelas senhoras de Deus por não terem pudor em se despirem ante seus homens. Mulheres decentes não se despiam nem aos seus maridos, que buscavam as mulheres-damas para apenas se satisfazerem e voltarem para casa e ainda cumprirem seus papeis de homens. Se voltavam é porque o que tinham em casa era “melhor” do que o que encontravam no bordel.

Vemos o cortejo às tais quengas por serem um material disputado entre todos os frequentadores do local. Presenteavam, disputavam, se envolviam de uma maneira que não faziam em casa, já que as de casa estavam garantidas e eram de respeito, mesmo que estivessem apaixonadas pelo primeiro que as tratassem com educação e zelo e respeito. As quengas eram despudoradas pois o sexo com elas era permitido pelo prazer da conquista. Em casa, o sexo era apenas o comprimento de uma função.

Vemos esses mesmos maridos e noivos forçando relações com as esposas em um termo bem usado por um dos coronéis à sua esposa: “hoje vou lhe usar”. Em uma determinada cena, a esposa quis argumentar sobre a falta do cortejo, do romantismo, da emoção do envolvimento. Ouviu de volta um “isso é coisa de mulher. Te dou de um tudo nessa casa, não preciso dessa ladainha. Agora se deite e abra as pernas”. Em outra casa, o noivo força a noiva a se deitar mais ele, alegando que botou comida na mesa dela. Logo, nada mais natural que a usasse. E a usou. E ela chorou contida. Certamente será desonrada ante as demais e terminará sendo tachada de pecadora enquanto ele arrumará uma mais decente para se casar.

Mas... o que aprendemos com isso tudo?
Simples: que ainda somos os mesmos.
Passados cem anos, pouca coisa mudou em muitos aspectos.

Vejo jovens reiterando comportamentos herdados de seus precedentes. Homens ecoando a mesma frase em quartos por aí e mulheres ainda chorando contidas enquanto apenas abrem as pernas para que seus maridos cumpram “a função” que lhes é cabida. Afinal, eles ainda trazem comida para a mesa, pagam as contas e dão de um tudo.

Vejo ainda muitas mulheres tratando as que se permitem sair dessa arcaicidade como sendo desonradas, despudoradas, ladras do marido alheio. Que os mesmos não são os culpados por se permitirem o desfrute da companhia das pecadoras: as pecadoras é que são as culpadas por não se darem o respeito. As mesmas mulheres que engolem reiteradas traições achando que, por seu homem voltar para casa, é delas que eles gostam e amam de verdade. As outras são apenas diversões que todo homem precisa ter.

O romance foi escrito no final da década de 1960, se baseando em um Brasil da década de 1920... mas hoje, década de 2010, ainda somos os mesmos e vivemos como os coronéis, beatas, quengas e afins. Como toda obra literária, sua interpretação muda conforme vivemos aspectos e situações diferentes ao longo da vida. Hoje é o que consigo ver e ressentir, baseado em minhas experiências e conceitos.

Espero que possamos aprender algo e que, ao nos vermos retratados em uma ficção adaptada, sintamos vergonha de nos assistir assim. E que essa vergonha seja amarga, a ponto de não querer mais rever as mesmas cenas, os mesmos capítulos. Porque nunca é bom ver cenas tão familiares em algo que deveria ser apenas uma obra de fantasia.

Em alguns casos, quando a arte imita a vida, é sinal de que a vida está precisando de roteiros e autores novos.


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Preciso voltar pra cozinha

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Não é isso o que estamos sempre buscando? Compreender o amor vivido, sentir o amor recebido, aprender a como viver sem o amor preterido, aprender a viver com o amor chegado, renegar o amor projetado, pleitear o amor impossível, esquecer um amor almejado, querer de volta um amor já amado?

Esqueça aqueles que não sabem viver para morrer de amor. Eles não nos entendem. A eles estão reservadas as superfícies dos sentimentos. Mas nós, que nos afogamos em busca de algo que nos faça sentir a leveza de respirar alguém, vivemos para isso: para amar, para morrer de amor e não querer matar ninguém com isso. Os outros apenas não sabem. E como são infelizes em suas felicidades os coitados que desconhecem o quão gostoso é viver assim.

Queremos a personificação daquela pessoa que passamos a vida imaginando, onde tentamos repetidas vezes encaixar qualquer outro alguém ali e apenas quebramos nossos conceitos, remodelamos nossos padrões e sempre faltava algo que encaixasse. Como numa culinária adaptada, aceitamos o que estávamos cozinhando, deixando a fôrma de lado e comendo aquilo que não saciava a fome nem nutria a alma. Mas faltava o tempero da exceção, a cobertura do que é tão óbvio internamente mas que ninguém sabia como decorar.

Cada nova paixão era uma fornada a mais e uma fome a menos.

Mas faltava algo, sempre faltou, não? E mesmo assim, nos sentávamos nas mesmas mesas que os outros, pedíamos o mesmo cardápio e sorriamos mesmo quando a vontade era sair gritando desse restaurante que a vida nos abriu. Jogar fora os velhos talheres, puxar a mesa e rasgar a toalha certinha e padronizada. O que queríamos mesmo era um balcão e uma cerveja pra acompanhar qualquer petisco incerto que saciasse aquela fome que nunca se saciava.

Hoje parece aumentar o número de saciados. Os que se levantam satisfeitos pela manhã e se contentam com os lanches que come por aí, fora de casa, para voltar e comer aquilo que sacia sua ausência de sentimento visceral. Mas nós não somos assim.

Se você ainda está nessa insana corrida, desista. Simplesmente desista de encontrar alguém. Tenha como certo a desistência do tentar, esqueça as projeções, assuma os fracassos, olhe para o mundo como um cardápio refinado e sujo e que nunca irá te dar vontade de abocanhar como se não houvesse indigestão amanhã. O hoje já está indigesto, portanto desista e aceite.

Somente quando realmente desistir é que conseguirá encontrar alguém.

Foi assim comigo. Deixei de esperar, cansei de ter fome e passei apenas a me alimentar para me manter sobrevivido. Não via mais esperanças apesar de esperá-las. Nunca chegavam. Apenas a fome doía, a vontade de engolir a vida passava a cada ronco do meu choro em minha barriga e a cada lambida das lágrimas em meu rosto cansado.

A fome já me fez chorar muito. Chorei a fome de alguém que não existia ainda, a fome de devorar e ser devorado, sentindo o abocanhar descrédulo deixando um pedaço enorme faltando cada vez que a saudade de alguém que não existia nos engolia - a mim e a ela - de volta.

Então te recomendo: desista. Aceite a derrota. A vida te venceu pelo cansaço.
É isso. Pronto, acabou, não há mais nada além disso. Certo?

Só assim realmente conseguirá achar a tua fôrma ideal. Desidealizada, inesperada, impreterida, encaixada em todos os conceitos que voltará a criar e pleitear. Você precisa se livrar de tudo o que acreditou um dia não merecer... para começar a merecê-los e a tê-los e a aceitá-los.

No final, a gente poderá até não entender ou compreender que é o amor, mas saberemos matar a fome que nos mata e ainda assim não saciá-la, sabendo que teremos suprimentos suficientes para nos manter vivos e nutridos e - por que não? - amados.



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Um dia como qualquer outro

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Depois de namorar seguidamente desde os 17 anos (tive três namoradas nesse período) me vejo hoje - quando todos elevam os parceiros esquecidos durante todo o ano, onde juras são trocadas e desfeitas com o virar do relógio, onde a troca existe apenas pela convenção de uma data - em meu primeiro Dia dos Namorados "oficialmente" solteiro... , 

E nunca me senti tão bem acompanhado!

Clichês serão usados e abusados no dia de hoje para fechar com chave de ouro as tentativas de dar a volta por cima depois de deixar a desejar o ano todo... (Sacou? Não? Foda-se...). Mas clichês nada mais são que a rotina segura do comportamento. É o certo, aquilo que de tão batido, tão desvirtuado, vira comum... é prático e não exige esforço de sentimento ou postura. 

Mas nem tudo o que é comum é natural. A naturalidade permite, inclusive, a prática dos clichês sem que soem assim, simplesmente por ser tão natural e inerente em quem prática. Quem dá um beijo e liga frequentemente para sua mãe, por exemplo, fatalmente fará o mesmo no Dia das Mães. Fará pela data, sim, mas não por ser clichê: fará porque está habituado a isso e justamente naquela data se manterá coerente. 

Por que não fazer o mesmo no Dia dos Namorados? Desde que não seja apenas nesse dia, tudo bem... Não vejo problemas em declarações serem feitas, em presentes serem trocados, juras eternizadas e momentos compartilhados. Se isso foi feito ontem e for também amanhã, hoje será apenas mais um dia. Não mudará nada... O "bom dia, amor" de ontem apenas será trocado por um "bom dia, namorado" hoje. A beleza do sentimento disso é sentida independente da data. 

O Dia dos Namorados não deve ser o enredo de um romance: pode funcionar, apenas, como um breve trailer do que ambos protagonizam à sós, longe dos holofotes do Youtube, das lentes do Twitter, do picadeiro do Facebook. O romance que precisa de plateia acaba quando as cortinas se fecham e apenas os dois estão na coxia, desmotivados em continuar a encenar a mesma tragédia como peça. 

Romance acontece no carro em uma música tocada e ouvida na companhia do silêncio de ambos, identificando e sentindo e se vendo no que canção diz; é o toque das mãos ao se deitarem sem a intenção sexual; um olhar de apoio sem que seja complacente; um beijo roubado após a saída do banho; um abraço engatado ao se levantar do sofá para ir buscar uma água ou fumar um cigarro... Ou ainda se preocupar com o bem-estar do seu parceiro ao longo do dia; saber como estão suas coisas e quais problemas ele tem e como pode tentar resolver; a parceria que faz abdicar sem se anular, a dedicação misturada com devoção apenas para garantir, ao menos, um sorriso naquele rosto todos os dias, mesmo que não o dia todo.

Isso tudo deveria ser frequente e não somente forçado hoje. 
Porque nem tudo o que é comum é natural...
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Noites em claro, dias escuros

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A única coisa real é a dor.

O resto ilude, superestima, faz sentir o que não é real. A dor não: ela te subestima, te dá o gosto amargo e aguado da realidade. Um ranço que percorre a garganta e dói no estômago. A ilusão é doce e insossa como um algodão doce, que se dissipa no pequeno abocanhar faminto, te deixando com a falsa sensação de saciedade.

O que segura um homem quando seus joelhos travam para que seu corpo não caia durante o banho, o colocando novamente na mesma situação de misturar as lágrimas com a água que cai, se afogando sem conseguir se levantar? O que mantém um homem em pé quando tudo o que ele precisa é de apenas uma mão tirando um pedaço de esperança de algum lugar e que o ajuda a acordar no dia seguinte, a dormir no dia que se encerra?

O que faz um homem não dobrar os joelhos e tentar se manter em pé é justamente a quantidade de dor que ele já sentiu na vida. Ou ainda: o quanto de dor ele ainda sente e sentirá. É a falsa esperança de que uma hora sairá desse inferno é o que o faz acordar, tentar dormir, e depois de novo se levantar. Quanto mais dor, mais esperança de sair dela ele possui.

Isso é o que te faz controlar a coragem de acabar com tudo. É o que te mantém longe das garrafas, dos copos, dos tragos. Tudo isso transforma covardes em heróis. E tudo o que você menos precisa é de coragem nessas horas. É o que mantém pulsos fechados e gargantas respirando quando a vontade é apenas de acabar com tudo de uma vez.

Mas ela o detém porque o tem.

Quanto mais a tenta afogar, mais fixa no fundo a âncora que te entrava. É assim que funciona a dor: quanto mais rasa, mais livre dela poderá ficar. Mas há sempre um idiota que busca compreendê-la e conhecê-la. Nessa busca pela realidade, nesse vício pela realidade, ambos afundam. Mas a dor sobrevive desse sufocamento. Ele não.

E a impressão que passa é a de que quanto mais o homem conhece o outro lado da cerca, mais alta ela fica. Quanto mais o gosto do alívio e da pseudo-felicidade ele sente, maior fica o muro para voltar a senti-los novamente. E a vida, essa filha da puta, parece se divertir dando a esse idiota o gosto daquilo que ele nunca poderá ter efetivamente. É como se colocasse um sorvete em sua boca em pleno verão, fazendo-o esquecer por um tempo do inverno... Mas subitamente o sorvete derrete, deixando apenas a lembrança de como é sentir-se aliviado do calor, deixando apenas o medo da volta eminente do frio.

A dor recebe o iludido de volta. Olha para a cara dele e diz: “você achou mesmo que poderia?”. E ele realmente achou. Respirou um tempo, sentiu a brisa da paz tocar-lhe a face, pôde um dia vislumbrar o que seria uma vida diferente da que lhe foi imposta.

Mas durou o tempo de um sonho.
E sonhos duram menos do que podemos esperar.

Sabe aquela coisa de alguém se afogando e chega outro para ajudar e ambos se afogam porque o primeiro se agarra ao segundo como se agarrasse a única chance de respirar?

Talvez isso seja o amor: você se jogar em resgate de alguém, sabendo que ambos poderão sucumbir ao desespero do outro em busca da vida. É entender que o outro se agarra a você não para te afundar junto, mas por querer também sobreviver ao mar da vida. E saber que não há intenção mútua de se afogarem. Porque você até suporta engolir água pelo outro, mas não pode tolerar que o mesmo tenha intenção de te afundar a cabeça e cortar seu ar.

Talvez amor seja isso: mesmo cansado de bater as pernas, mesmo exausto de tanto nadar, mesmo quase desistindo do respirar, você permite que alguém tente te resgatar, mesmo sabendo que tal tentativa irá causar ferimentos no outro. Você não desiste porque o outro ainda não desistiu de você. E ambos entenderão que as marcas causadas não foram intencionais. Foram circunstanciais e assim as suportarão. Porque você até suporta se machucar, mas não pode tolerar a reincidência de machucados intencionais.

Talvez amar seja assim: aceitamos cair nesse mar, correndo o risco de nos afogar e desistir de tudo, mas não queremos ver quem amamos se jogar da mesma plataforma com a mesma intenção. Porque sabemos o que leva alguém a se jogar. Há uma estranha sintonia na dor que nos faz enxergar o outro de uma forma como nós mesmos não nos enxergamos. Muito menos aceitamos ver esse alguém ser jogado. Porque o amor até aceita rompantes de autoflagelo, mas não tolera os açoites sádicos alheios.

Para mim, o amor é o coletivo de sentimentos e, como tal, se arma de dois deles para salvar os náufragos desesperados por ar, mas que acham já desistiram de respirar. Penso que o amor é como aquelas boias que crianças usam nos braços para aprender a nadar. Uma boia se chama respeito, a outra lealdade. Sem uma, a outra sucumbe ao peso do corpo. E sem ambas, não há como seguir boiando. Nem como aprender a nadar.

Mas tudo dura o tempo de um sonho.
E sonhos duram menos do que podemos esperar.

E é nessa hora que a dor te acolhe em sua cama de espinhos, te cobre com sua manta de metal incandescente, te afaga com suas ásperas mãos e diz, com aquela voz rouca e embargada: “eu estou aqui”. Lá no fundo, ancorada, te prendendo o ar enquanto olha para cima e vê a imagem se turvando daquele alguém que cometeu a heresia de tentar te salvar, segurou sua cabeça acima da superfície e te fez sentir como é respirar.

Enquanto afunda, se lembra do que é viver sabendo que hoje será sempre o último dia que terá daquela pessoa. Conviveu com a certeza de que amanhã não a teria mais. E fechou os olhos para não mais perdê-la de vista.

Desesperado, você tenta sair, mas já está preso novamente. De novo. Outra vez. E estranhamente sente que a lealdade da dor para com você é eterna. Ela nunca te abandonará nem nunca te iludirá. Ela apenas o quer assim, miserável como sempre.

Porque, no final, a única coisa real é a dor.


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Encontre seu Wilson

Posted: | Por Felipe Voigt | Marcadores: 0 comentários
Ainda estou impactado com o final de House... depois de oito temporadas revistas não sei por quantas vezes, chegou ao final. Assisti apenas agora de madrugada e me coloquei a pensar muito sobre o legado que a série deixa no quesito “relacionamentos”. E, obviamente, me coloquei a pensar sobre os que tive e tenho. Mas não nos que terei.

O episódio final poderia ter uma única definição: sacrifício. Um sacrifício entre aspas, em nome da amizade e do amor, mas principalmente em nome da necessidade que se tem dessa amizade e desse amor.

Porque você terá meia dúzia de pessoas ao seu redor que conseguirá cativar pra valer. Talvez o dobro disso, mas não mais do que isso. Muitos poderão te admirar, se empolgar com sua presença ou mesmo com o que você oferece de companhia. Mas apenas essa meia dúzia realmente terá acesso pra valer a você. Destas, você se cercará de duas ou três que realmente te conhecem e te fazem se sentir bem com o que você é. Se apaixonará algumas dezenas de vezes... mas só amará pra valer uma única vez e será para sempre.

E ambos saberão que se machucarão e se machucaram, mas se completam em áreas diferentes ao mesmo tempo em que são muito iguais, sentem o mundo da mesma forma, apenas optam por agir diferente ante os percalços. Um é a consciência do outro, a realidade do outro, o contraponto sem divergir.

São atos que soam como devoção, mas não uma devoção cega e complacente. Devota-se por encontrar respaldo e amparo. É real, é tátil, palpável ao mesmo tempo em que é surreal e inatingível. Mas uma devoção sem amarras nem condicionamentos.

Há entrega, há cumplicidade e lealdade. Um ciclo não a ser completado, mas a ser iniciado pra valer, efetivado, consumido e consumado. E haverá um comprometimento mútuo, a ponto de um se sacrificar mais pelo outro... E mesmo que o outro não suporte esse "sacrifício", ainda há conforto por saber que a pessoa está ali, em nome daquilo que ambos têm.

Que não é só amizade, não é só amor... é algo maior!
Que você consiga encontrar o seu House, o seu Wilson...

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A referência é um caco

Posted: | Por Felipe Voigt | Marcadores: 1 comentários
Tudo o que buscamos na vida é sermos referências em algo ou para alguém.

Seja no trabalho, nos estudos, no lazer, seja entre os que te cercam, sempre pretendemos marcar algo em alguém ou em alguma coisa. Por mais que a vida passe sem grandes transformações e conquistas e emoções, ainda assim esperamos que em algum período da nossa existência tenhamos marcado as páginas de alguém. Que seja em uma mera nota de rodapé, mas que haja uma leve referência ao nosso nome, independente do virar dos anos.

Há uma lembrança minha de adolescência que me vem à cabeça frequentemente quando fecho os olhos: eu fui goleiro de futebol de salão da minha classe da oitava séria ao terceiro colegial. E pela primeira vez na minha vida eu era bom em algo. Não só era como me sentia bom. Enforcava aula para jogar por outras classes, sempre que precisavam de alguém para “catar no gol” me chamavam. Jogava de bota e jeans, de moletom e sandália. Mas jogava.

E toda vez que me recordo desse período, lembro-me de uma defesa espalmada no ângulo depois de um chute à queima-roupa. Plástica, bonita, sonora, daquelas que te fazem se levantar do chão olhando em volta e dizendo: eu sou foda!

Em algo besta, pequeno e temporal eu fui uma referência.

Ainda vejo vestígios desse cara foda. Vejo em uma bola bem encaçapada no bilhar e que extrai a admiração de quem assistiu. Em uma frase bem aplicada em meio a estrofes e estrofes pretensas de um poema e que extrai de quem leu um “puta que pariu”. Em um sorriso mágico extraído através de um simples presente feito por mim e que tinha a clara intenção de causar isso em quem sorriu. Em uma argumentação bem elaborada em meio a uma discussão e que extrai o silêncio do debatedor oponente.

Tudo isso eu faço porque sei que sou foda em algumas coisas.
Coisas que não conheço ninguém que possa fazer igual.
Melhor, sim... mas igual, não.

Só que isso não muda muito as coisas por aqui. O fato de ser foda deveria me tirar algumas sensações, mas não tira. Saber que sou foda apenas piora. É pretenso, é egolatria, é umbiguismo, chame como quiser. Mas sei que sou foda e isso não me faz melhor ou pior que ninguém. Apenas me faz diferente. Porque me sinto assim: diferente.

Sou o único filho homem dos meus pais. Sou o que dorme pouco e pensa muito e viaja demais. Sou o arrogante, sou o holograma, sou o que não existe. Já fui o primeiro beijo de alguém. Já fui o primeiro sexo de alguém. Já fui o primeiro namorado. Já fui o primeiro marido e o primeiro divórcio. Nunca fui o primeiro amor nem nunca fui o único amor de alguém. Talvez nunca consiga sequer ser o último amor de alguém. Não me entrego ao trabalho com a mesma dedicação com que me entrego a alguém. São e foram minhas referências.

Não vou construir casas, pois casas não fazem lares. Não erguerei paredes, pois paredes não seguram sentimentos. Fiz dos meus conceitos meu templo e neles me abrigo. E os reformo sem que precise mudá-los.

E hoje estou assim: perdido e sem referências para saber qual referência sou hoje. Não consigo escrever, não consigo pensar em nada muito foda. Estou comum, estou banalizado, estou normalizado. Só que preciso voltar a me sentir foda.

Porque ser referência é uma maneira de enganarmos a morte. E quando essa vadia vir me buscar e trouxer o alívio para este inferno que é viver dentro da minha pele, não conseguirá recolher todos os cacos que soltei por aí e por aqui.

Só preciso saber quais são esses.

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Um pedido velado de socorro

Posted: | Por Felipe Voigt | Marcadores: , 5 comentários

O mais triste é saber que se acostumaram à minha dor.

Todos que me conhecem um pouco e que têm acesso a mim, sabem que sofro uma constante dor. Quando chegam perguntando “tudo bem?”, se acostumaram a ouvir um “não” ou um “tudo indo”. Logo depois, na maioria dos casos, segue-se apenas a conversa habitual, sem muito interesse por como estou. Falam de seus problemas buscando soluções em algo que eu possa dizer ou compreender. Talvez busquem referência justamente em alguém que está em eterna busca de compreender a dor e o sofrer.

Habituaram-se ao meu sofrimento, sabem que é uma condição existente e que não há o que ser feito. Desistiram de tentar pois é quase instantâneo em mim a recusa a qualquer ajuda.

Mas não sabem que no fundo estou implorando por ela. Na minha reclusão, quase me rasgo por um socorro. Mas não qualquer socorro. Não aqueles com frases de estímulo do tipo “tudo vai passar”. Quem me conhece sabe que não: não é tudo que passa comigo. Quem diz que vai passar é porque não me conhece. Ou então porque não tem condições de lidar com o que trago em mim, esse peso tão intenso que sufoca e machuca.

Mesmo aqueles que não sabem lidar com isso se sufocam e se machucam ao estar ao meu lado durante minhas crises, meus surtos, meus rompantes. Com isso, a tendência é se afastarem. Pois “não há o que ser feito” para me ajudar e, portanto, resta apenas se acostumar. E se acostumando, se afastam... pois se cansam.

Nessa habituação ao meu sofrimento, tudo vira normal: meus poemas, meus textos, minhas lágrimas, minhas noites sem dormir. Já sabem que isso é cotidiano e se chocam menos. Quase vira um conformismo, uma aceitação a algo que nem eu consigo aceitar. Pode parecer que não, mas há uma luta imensa sendo travada aqui dentro dessas linhas que me cercam.

Das pessoas mais difíceis que conheço, sou a mais impossível. Entendo até a necessidade que possuem de se afastar de mim. Fazem para não me ver nesse estado, nessa condição. Fazem para não sofrer ao me verem sofrer. Uma postura mais fácil ou menos difícil para elas, talvez.

Mal sabem elas que grito em silêncio para suas costas, ante de fecharem de novo, mais uma vez, aquela maldita porta.

Pois se sofro com a presença, com a ausência haverá sofrimento ainda maior. A dor se potencializa na ausência, se digladia no afastamento, se alimenta da distância. Houve quem conseguisse me tirar dessa condição. Me mostrar um outro eu que existe aqui dentro e que gosto dele. Não é um outro eu, apenas um outro lado meu que quase ninguém consegue fazê-lo sair. E eu gosto desse cara, sinto falta dele... e ele existe. Me mostraram que ele existe.

Mas há um lado meu muito cruel comigo. Esse lado cruel tende a massacrar esse meu lado que gosto que exista. Acredite: eu sou muito cruel comigo, realmente chego a níveis absurdos até mesmo para mim. Crio cenários, situações onde esse meu outro eu será rechaçado, humilhado, destruído com todos os requintes sádicos.

E eu realmente sei como fazer isso com maestria.
Nessa fornalha chamada dor, eu a alimento me usando como lenha.

E por que faço isso? Não sei. Nessa minha incessante busca pela compreensão da dor, me coloco em situações ainda piores só por necessidade de entendê-la e conseguir respostas. Mas isso me faz uma pessoa cheia de certezas dentro das inúmeras dúvidas. Estou quase sempre certo e isso me faz ter cada vez mais sede por respostas que aliviem essa certeza. Nesse processo, queimo quase todos que tentam estender a mão para me ajudar.

E o que há de ser feito? Eu preciso apenas que alguém consiga ficar. Não qualquer alguém, mas alguém que saiba e entenda. Que saia mas volte. Que doa mas fique. Que lute comigo contra mim. E que me ajude a defender aquele meu outro eu. E que não tenha medo de me machucar, ser injusta ou egoísta.

Só não sei se mereço... 


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Hoje eu também fui estuprado

Posted: | Por Felipe Voigt | Marcadores: 3 comentários

Crianças de 12 se prostituem. São estupradas. O caso vai para o Superior Tribunal de Justiça. E qual a decisão?

"...não se pode considerar crime o ato que não viola o bem jurídico tutelado – no caso, a liberdade sexual. Isso porque as menores a que se referia o processo julgado se prostituíam havia tempos quando do suposto crime." 

Isso mesmo: para o STJ, as meninas não foram estupradas, já que se prostituíam há tempos e isso as colocam em posições diferentes diante de um crime bárbaro como um estupro. O que era pra ser um julgamento de um estuprador, virou uma acusação às vítimas! E abriu um precedente imensamente perigoso.

“...as vítimas, à época dos fatos, lamentavelmente, já estavam longe de serem inocentes, ingênuas, inconscientes e desinformadas a respeito do sexo.

Viram? O estuprador saiu como vítima da história, já que as crianças não eram mais ingênuas. Não, não estou inventando isso: a matéria foi publicada no site do STJ e eu recomendo que leia.

Minha indignação ultrapassou meus limites normais. Nós, que tanto lemos e lidamos com isso no Querido Ogro, deveríamos estar habituados, não é? Não... não há como se acostumar a isso. Se acostumar é se acomodar, é deixar morrer o dom e o tom da indignação, da revolta, do nojo que tal prática causa.

Ao nos acostumarmos, deixamos que o padrão se estabeleça.

Esse comportamento típico ao qual fomos banhados por décadas e que o STJ legitima agora, apenas oprime ainda mais as vítimas e as deixam desamparadas, com uma sensação de que a sociedade aceita que passem por isso e pior: não fará nada para coibir ou punir. O sentimento de culpa nelas será agravado com essa decisão. Triste demais, deplorável demais!

O que há de ser feito? Mandei a mensagem abaixo para a Ouvidoria do STJ:

"O Superior Tribunal de Justiça presta um desserviço ao inocentar um estuprador de meninas de 12 anos que se prostituíam! Senhores ministros: o que estão fazendo é desumano, pois abrem um precedente perigoso demais! Quer dizer que por se prostituírem estão dentro de parâmetro onde se aceita que sejam estupradas por isso? Então prostitutas poderão ser estupradas? Afinal, estão "longe de serem inocentes, ingênuas e desinformadas a respeito do sexo".Ou ainda: uma criança de 12 anos que já tenha feito sexo também será passível de estupro, já que deixou de ser "ingênua" sobre o assunto?  Se a criança for uma prostituta (por fatores de desamparo social e político, por exemplo), ela não será considerada vítima se alguém a estuprar... Ou mesmo: se o estuprador provar que ela já tinha uma vida sexual ativa antes dos 14, também não será estupro!As meninas se prostituíam e foram estupradas. Por que estavam ali? O STJ ao invés de punir o Estado, inocenta o estuprador! Ao invés de cobrar das autoridades por uma assistência social que não levasse as meninas a tal prática, preferem estimular outros estupros sob essa mesma alegação: elas estão ali pra isso, sabem sobre sexo e não são mais inocentes.Um precedente medonho e assustador demais, senhores ministros. Ainda mais sendo uma relatora mulher, que deveria ter uma sensibilidade maior justamente por ser mulher, mãe, avó, tia... Me sinto igualmente estuprado hoje ao saber que o magistrado do meu país é conivente com tal monstruosidade. Um passo é dado em cada lei aprovada, mas dois são dados atrás com decisões como essa."

Pode não ser efetivo? Pode... mas quem garante que não? O que não dá é pra deixar esse desserviço passar assim, sem ao menos mostrar ao nosso Supremo que não estão acima dos interesses sociais.

Mas não estamos sozinhos. a Secretaria de Direitos Humanos publicou uma nota sobre o sobre o caso:

"Com essa sentença, um homem foi inocentado da acusação de estupro de três vulneráveis, o que na prática significa impunidade para um dos crimes mais graves cometidos na sociedade brasileira. Esta decisão abre um precedente que fragiliza pais, mães e todos aqueles que lutam para cuidar de nossas crianças e adolescentes." Leia mais

E depois de ler tudo isso, o que você vai fazer? Ficar calado e achar que não tem nada a ver com isso? NÃO! Vá em suas redes sociais e demonstre também sua indignação. Dê todo apoio ao que lutam tanto contra isso. Vá à ouvidoria do STJ e também deixe sua crítica aos ministros. Leia relatos de quem passou por isso e sinta suas dores e não queira que isso aconteça com quem te cerca.

Não dá pra ver isso e ficar calado... as vítimas são sempre as crianças!

:: Link da Ouvidoria do STJ
:: Perfil da Ministra dos Direitos Humanos no Twitter
:: Carinho de Verdade: movimento contra o abuso de crianças e adolescentes
:: Pra sentir o que é estar do outro lado: depoimentos de vítimas de pedofilia
:: Vítimas de estupro também contam o que é ser estuprada e se ver como culpada


Mas por hoje eu também fui estuprado pelo STJ... e não: eu não tive culpa nisso.

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Sobre os prazeres na cozinha

Posted: | Por Felipe Voigt | Marcadores: 6 comentários
Estou redescobrindo o prazer de uma cozinha.

Não, nunca fui um bom cozinheiro, me aventuro em coisas práticas e básicas, sem muita preparação ou dificuldade. Mas confesso que tem sido bom descobrir um lado meu que, de certa forma, estava adormecido ou ao menos sonolento.

Minha primeira experiência pra valer foi uma panela de pipoca. Um certo sábado à noite, eu nos meus 12 ou 14 anos, sozinho em casa e com vontade de comer algo. Meus pais fora, minhas irmãs também. A única coisa que achei menos ameaçadora foi estourar pipoca. Ledo engano: usei uma tapa que mal cobria a panela e tão logo os milhos começaram a pipocar, eu senti o óleo me atingir as mãos e braços.

Acabada a tortura, o resultado: ao final do despejo na vasilha, minhas lindas pipocas levaram um banho engordurado. Sim, eu coloquei pipoca de menos ou óleo de mais, você escolhe. A segunda tentativa foi o avesso: tampa maior, óleo de menos. E o cheiro de queimado, obviamente.

Algumas vezes inventava de fritar algo. Um pastel, um amendoim... Sim, tenho uma receita de amendoim frito que aprendi com o meu pai que leva a especial participação de um saco de pão para secar o excesso. Até consegui inventar estourar pipoca com amendoim ao mesmo tempo: enquanto um estoura, o outro frita e ambos ficam prontos ao mesmo tempo.

Como pode ver, pipoca sempre foi minha única especialidade.

Depois disso, me aventurei a pequenas coisas. Até que inventei de criar pão de queijo ou biscoito de polvilho. É, criar mesmo: ver uma receita, guardar os ingredientes e na hora do feitio, esquecer de tudo e ir na base da tentativa-erro. Os primeiros também fritaram em óleo, mesmo sendo assados, se é que me entende.

Um dia minha avó pegou minha receita que dava mais certo ou menos errado. E a melhorou. Ela teve a audácia de pegar a minha receita e melhorá-la. E com uma mão, dada a seqüela de um AVC. E mesmo assim ela foi além. Ah, dona Manoela!

Um viés: eu sempre fui “fresco” pra comida. Há poucas coisas que realmente como e uma lista imensa do que não como. Já fui levado, quando criança, em psicólogos, nutricionistas, pediatras e até benzedeiras. Nunca encontraram nada de anormal. Apenas meu gosto é restrito, não há muita coisa que como, de fato. E mesmo assim peso 86 quilos nos meus 1.85 de altura. Bem nutrido, até!

Pois bem: quando casei, há alguns anos, cheguei a me aventurar em coisas mais diferentes como uma polenta ou mesmo um doce de leite. Mas raras vezes, já que minha ex-esposa tinha uma relativa aversão à louça-para-lavar-no-dia-seguinte. Com isso, eu meio que me segurava para não sujar muita coisa. Assar finos pedaços de queijos numa forma antiaderente era e é minha especialidade – minha famosa “bolachinha de queijo”, de preferência provolone ou parmesão. Ou adicionar um Sazon na fritura da pipoca – sempre ela, claro. Ou ainda refogar da forma mais básica uma carne moída para rechear meu pastel que fica frito de um jeito bem crocante.

Hoje tenho tido mais vontade de me aventurar em coisas diferentes e que possam me prender a atenção por meia hora ou mais, já que durante o dia há a ida ao mercado, a pesquisa pelos ingredientes no celular, a separação de tudo em cima da pia e a respiração funda antes de começar. Tudo acompanhado de uma garrafa de vinho num canto e um blues tocando em outro.

Descobri qual a batata certa para fritura – Asterix é a raça da dita cuja -; consegui fazer tortinha de limão de um jeito que deixa qualquer padoca no chinelo; reformulei minha receita de pão de queijo; faço o melhor pão com bacon e queijo e batata palha que conheço; já sei como fazer torresmo\panceta na panela de pressão; minha paçoca de leite condensado fica divina e meu capuccino é sempre cremoso. Isso sem falar na minha caipirinha de morango com saquê.

Agora me arriscarei, quem sabe, numa panqueca americana ou num cheesecake.

Eu gosto da cozinha, mesmo que dessa forma sem frescuras ou grandes dificuldades. E consegui, finalmente, entender qual o prazer de se cozinhar para alguém e receber um elogio por isso, refletido em um mero “hum”. Uma cozinha é um balcão de bar adaptado: quem assiste e quem confecciona o prato dialogam, se vêem e se notam. Um sentado esperando enquanto o outro em pé se empolga. Depois há a espera do tempo de cozimento ou resfriamento. Depois a apreciação. E durante tudo isso, a chance de se conhecerem mais, além do que já se conhecem.

É íntimo, é particular, é saboroso e cheiroso. Mesmo quando dá errado.
Mesmo quando sozinho e preso à reflexão do dia ou da vida vigente.
O problema é a porra da louça pra lavar depois.

(Escrevi isso por culpa do filme “Entre vinhos e amores”... bom, não só por ele, mas já deu pra entender)

(Ah: se quiser ver o resultado, coloquei umas fotos nesse álbum pra provar que não é mentira!)
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