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Ainda chovem as mesmas gotas de antes...

Posted: | Por Felipe Voigt | Marcadores: 0 comentários

Já quis muito morrer por amor. Já perdi as contas de quantas noites em vão chorei esperando um alívio mortal chegar. Mas confesso que pela primeira vez em muito tempo, estou pretendendo viver por amor. É a mesma coisa, tem o mesmo gatilho, mas são intenções diferentes.

Tudo bem que escrevo isso depois de algumas garrafas e acompanhado de outra entre minhas pernas enquanto um blues derrama pela TV e ainda me vejo impactado pelo encontro de horas atrás... mas, ainda assim, a sensação não muda. Talvez se potencialize, de alguma forma. Não seria a primeira vez, afinal. Vou jorrar letras enquanto algo me entorpece...

O mundo está sempre errado, entenda isso. Você está certo quando se baseia no que sente, no que vê, no que vivencia e no que acredita. Mesmo depois de tempos de sombrias ausências, de tristes distâncias, de fartas faltas.

Os olhos ainda brilham, o mundo ainda para de girar, a boca ainda é macia, o cheiro agrega à atmosfera e o calor ainda faz tudo arrepiar. Há realidade, há fantasia, tem existência, tem a realeza do sentimento. São segundos, são minutos, perpetuados em décadas e séculos de um milênio que nunca acabará.

Eu realmente espero que você entenda o valor de um trago nessa hora e saiba o quanto isso acaba te trazendo a fuga necessária para não pesar o momento, não foder com o clima estabelecido sob chuva e frio e pressa e mágica.

Porque, sim, mágicas ainda acontecem. Ainda existem, não se dissipam no ar, não se transformam em cinzas abitucadas num canto triste do cinzeiro do tempo... Acho que já escrevi isso em algum lugar. Ah, foda-se! Não acredite no que escrevo bêbado e ouvindo Willie Dixon... nós não precisamos disso.

E sabe o que me fode ao escrever tudo isso? Você não entenderá realmente o que digo. Certamente fugiu disso sua vida toda, ao tentar encontrar algo parecido. Você quer mas evita; você busca mas não almeja. Porque se você realmente soubesse, teria parado no primeiro parágrafo e encontrado todo o sentido que tento passar aqui. Porque já viveu, já possui, já aguenta sua barra de uma forma igualmente ardida como a minha.

E ainda assim sorri e espera não mais querer morrer por isso. Talvez apenas esteja mais sóbrio. O que é um grande erro, meu caro... é preciso se deixar embriagar pela boca, pelo faro, pelo olhar. Porque no final, suas lágrimas voltarão a rolar. E elas são o sumo que faltava há semanas...

Mas se ainda assim não sabe do que estou falando, espero realmente que um amor foda sua vida... Que te destrua, que te dilacere, que te extraia todo cerne, corte o âmago, exale o torpor. E apenas assim sentirá como sendo único, real, verdadeiro, permissivo... e mágico.

Porque a mágica não se dissipa, não se transforma em cinzas... creia no que este velho bêbado te confidencia. Porque mesmo embriagado, hoje ele quer e precisa sobreviver.

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Um verde luar

Posted: | Por Felipe Voigt | Marcadores: 1 comentários

São quatro horas da manhã e agora você dorme. Certamente a vela do teu sono se apagou há algumas horas. O meu dia está longe de terminar ou de começar. Nunca sei ao certo quando um termina para o outro começar.

Ainda há pouco estava pela rua, vagando sozinho em busca de ar. Na noite vazia em busca de abrigo. Tentando uma forma de em você me reencontrar. Tracei rumos, pensei em histórias, apaguei ideias, me perdi novamente tentando te buscar.

Quando cansei, voltei para casa. Mas antes de no carro entrar, parei por uns minutos olhando para o céu. Algo estava ali a me observar. Parecia que sabia o que ainda não sei. Sentia o que há muito ressinto. Foi quando nessa troca, um sorriso me fez entender o que eu estava a apreciar.

Voltei dirigindo em silêncio, não liguei o rádio. Não abri os vidros. Deixei apenas o silêncio daquela luz me guiar de volta. Lá estava, alto no céu, como se tivesse saído hoje apenas para exigir contemplação. Muitas vezes, todas as vezes, esteve por ali. Mas hoje apenas queria a contemplação.

Esteve sempre tão claro e já transformei isso algumas vezes em poemas. Talvez devesse novamente poemar. Mas não quis. Apenas preferi te escrever para te explicar aquilo que foi me passado há pouco. Não quero rimas, não pretendo romantizar as linhas. Logo mais estará acordada para a semana começar e não terá tempo de lirismo se banhar. Pela manhã, a urgência da vida cobra uma praticidade esmagadora. Não há tempo para sentir, apenas para sobreviver e pensar.

Mas talvez haja tempo. Alguns minutos desse seu dia incerto. E em um leve piscar entenderá o que digo. Pois foi assim que me foi gritado, berrado, escancarado ao sair há pouco para respirar: 

Enquanto a Lua é você, o luar é teu olhar.

Há dias em que o luar está diferente do seu habitual. Está simples, está normalizado. Saímos pela noite e o vemos ali, sem a necessidade de o contemplar. Sabemos que ilumina todo o céu, na penumbra até percebemos as sobras causadas por ele. Mas não foi criado com esse propósito. O luar precisa ser admirado e contemplado a cada mudança de posição.

Assim é o teu olhar. Em dias conturbados, ele se nubla. Aparenta uma normalidade que não é inerente a ele. Apenas está a cumprir o ciclo do calendário, deixando o virar das folhas abrir e fechar suas pálpebras feito nuvens. Mas não foi esse o propósito do seu olhar ter sido criado.

Não...

Esses olhos verdes são capazes de fazer com que eu me reapaixone como me reapaixonei pela Lua agora. Novamente. Outra vez. De novo. É parar para por longos momentos e apenas fazer isso: ver, olhar, analisar, se perder, se encontrar.

Mesmo quando o céu não está enluarado. Um céu enegrecido é um céu com saudade do teu olhar. Teu olhar é o luar dos que te contemplam. Traz conforto, traz alento, acalanta todo o meu sofrimento.

Tantas foram as vezes que me vi nessa situação como esta de agora e apenas deixei a poesia de te amar me dominar. Tantas outras foram as vezes em que vi esse mesmo luar invadir meu quarto e se deitar em minha cama e apenas me coloquei a observar para depois escrever. Não queria deixar de perpetuar aqueles momentos, assim como não quero deixar morrer esse luar que agora o mundo perde enquanto eu o ganho.

Luar que agora se esconde atrás desse prédio em construção que me ladeia. De tanto elogiá-la apenas em um contemplar, se ruborizou e apenas sorri tímida enquanto escrevo. Feito você quando elogiada, que se enrubesce e se esconde na fina garoa da ironia.

Deveria ter feito disso um poema, mas não saberia como traduzir o que agora sinto ao me ser revelado tal segredo. Por isso apenas escrevi para te contar. Siga dormindo e acorde amanhã sabendo que seu olhar é a joia que a Lua ganhou para ostentar tal qual a mais narniana das relvas, os mais bem forjados brincos, uma herança dos céus para os mortais que possuírem o privilégio de contemplá-los enquanto viver.

Seus olhos são o luar da Lua, o único que ela pode realmente contemplar. Os mantenha sempre iluminados, assim a Lua seguirá devolvendo espetáculos como o de hoje. Ela merece ser recompensada.

E eu no meio, banhado pelas duas.
Pois você é minha Lua e seu olhar é o meu luar.
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Mais uma semana

Posted: | Por Felipe Voigt | Marcadores: 2 comentários
Eu sei que essa semana está foda. Desde domingo algo a retrai, te incomoda, te trava o corpo e limita o ar. Não é fácil voltar a lidar com o mesmo cenário mental que tanto tentou apagar ao longo dos anos. Parece que até o cheiro volta a ser o mesmo. O mesmo silêncio. O mesmo pavor. A mesma dor.

Aquela apresentadora passou pelo mesmo que você. E ter acesso às opiniões conflitantes e ignorantes e cruéis sobre esse assunto parece que te trouxe o amargo na boca de volta. Hoje a recriminam da mesma forma que fizeram contigo. A culpam como te culparam. A ignoram como te ignoraram. E tripudiam, como também tripudiaram.

E não importa quanto tempo tenha passado: seis meses, 10 anos, uma vida... há fantasmas que sempre insistem em voltar. No Natal, no aniversário, nos outonos, no feriado, no meio da semana. A sombra que assusta, o toque que acorda, o barulho que faz calar, a vontade de fugir, o desejo de morrer ou de matar.

Tudo isso voltou à tona essa semana. E te retraiu, te travou, te fez engolir a seco novamente.

Esses idiotas não sabem do que falam. Alguns até sabem, o que faz da idiotice ainda mais cruel. Apontam, julgam, condenam e pregam comportamentos. Mas eles não sabem o que é sentir isso. Eu não sei o que é sentir isso. Mas você sente. E ressente.

Apenas respire. Não sinta medo de sentir medo novamente. Não se sinta ruim por projetar esse temor nos que te rodeiam. Não se sinta exagerada por ainda não esquecer. Algumas coisas não esquecemos, apenas engavetamos. E gavetas expostas precisam ser fechadas.

Tenha alguém em quem confiar seu medo e sua revolta e sua retração. Alguém que possa te ouvir sem o olhar de pena, nem a desconfiança que enoja. Apenas fique em silêncio e peça o carinho que merece. Um ombro que ajude a suportar tua mágoa incompreendida por muitos. Uma mão que te toque sem intenção de te ferir a alma. Um olhar que diga “estou aqui”. E que você queira estar. E fique.

Mas por hoje, apenas feche os olhos e respire.
Não vamos deixar nada mais acontecer.
Apenas respire...

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Um pedido velado de socorro

Posted: | Por Felipe Voigt | Marcadores: , 5 comentários

O mais triste é saber que se acostumaram à minha dor.

Todos que me conhecem um pouco e que têm acesso a mim, sabem que sofro uma constante dor. Quando chegam perguntando “tudo bem?”, se acostumaram a ouvir um “não” ou um “tudo indo”. Logo depois, na maioria dos casos, segue-se apenas a conversa habitual, sem muito interesse por como estou. Falam de seus problemas buscando soluções em algo que eu possa dizer ou compreender. Talvez busquem referência justamente em alguém que está em eterna busca de compreender a dor e o sofrer.

Habituaram-se ao meu sofrimento, sabem que é uma condição existente e que não há o que ser feito. Desistiram de tentar pois é quase instantâneo em mim a recusa a qualquer ajuda.

Mas não sabem que no fundo estou implorando por ela. Na minha reclusão, quase me rasgo por um socorro. Mas não qualquer socorro. Não aqueles com frases de estímulo do tipo “tudo vai passar”. Quem me conhece sabe que não: não é tudo que passa comigo. Quem diz que vai passar é porque não me conhece. Ou então porque não tem condições de lidar com o que trago em mim, esse peso tão intenso que sufoca e machuca.

Mesmo aqueles que não sabem lidar com isso se sufocam e se machucam ao estar ao meu lado durante minhas crises, meus surtos, meus rompantes. Com isso, a tendência é se afastarem. Pois “não há o que ser feito” para me ajudar e, portanto, resta apenas se acostumar. E se acostumando, se afastam... pois se cansam.

Nessa habituação ao meu sofrimento, tudo vira normal: meus poemas, meus textos, minhas lágrimas, minhas noites sem dormir. Já sabem que isso é cotidiano e se chocam menos. Quase vira um conformismo, uma aceitação a algo que nem eu consigo aceitar. Pode parecer que não, mas há uma luta imensa sendo travada aqui dentro dessas linhas que me cercam.

Das pessoas mais difíceis que conheço, sou a mais impossível. Entendo até a necessidade que possuem de se afastar de mim. Fazem para não me ver nesse estado, nessa condição. Fazem para não sofrer ao me verem sofrer. Uma postura mais fácil ou menos difícil para elas, talvez.

Mal sabem elas que grito em silêncio para suas costas, ante de fecharem de novo, mais uma vez, aquela maldita porta.

Pois se sofro com a presença, com a ausência haverá sofrimento ainda maior. A dor se potencializa na ausência, se digladia no afastamento, se alimenta da distância. Houve quem conseguisse me tirar dessa condição. Me mostrar um outro eu que existe aqui dentro e que gosto dele. Não é um outro eu, apenas um outro lado meu que quase ninguém consegue fazê-lo sair. E eu gosto desse cara, sinto falta dele... e ele existe. Me mostraram que ele existe.

Mas há um lado meu muito cruel comigo. Esse lado cruel tende a massacrar esse meu lado que gosto que exista. Acredite: eu sou muito cruel comigo, realmente chego a níveis absurdos até mesmo para mim. Crio cenários, situações onde esse meu outro eu será rechaçado, humilhado, destruído com todos os requintes sádicos.

E eu realmente sei como fazer isso com maestria.
Nessa fornalha chamada dor, eu a alimento me usando como lenha.

E por que faço isso? Não sei. Nessa minha incessante busca pela compreensão da dor, me coloco em situações ainda piores só por necessidade de entendê-la e conseguir respostas. Mas isso me faz uma pessoa cheia de certezas dentro das inúmeras dúvidas. Estou quase sempre certo e isso me faz ter cada vez mais sede por respostas que aliviem essa certeza. Nesse processo, queimo quase todos que tentam estender a mão para me ajudar.

E o que há de ser feito? Eu preciso apenas que alguém consiga ficar. Não qualquer alguém, mas alguém que saiba e entenda. Que saia mas volte. Que doa mas fique. Que lute comigo contra mim. E que me ajude a defender aquele meu outro eu. E que não tenha medo de me machucar, ser injusta ou egoísta.

Só não sei se mereço... 


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A mulher da relação

Posted: | Por Felipe Voigt | Marcadores: 4 comentários
Não havia o que a fizesse parar de rir.

Estavam no carro, seguindo para o trabalho dela em outra cidade, ele dirigindo e ela gargalhando pela noite anterior. Ele, o motivo da gargalhada, ria junto. Não tinha como não rir. Até esboçou estar emburrado, fez charme mas também cedeu. Quanto mais “bravo”, mais ela ria...

Ela o convidou para dormir em sua casa naquela noite, para que a acompanhasse na manhã seguinte. Um convite irrecusável e assim ele foi. Estavam na cama, conversando e começando a namorar. Antes, ele checou seus e-mails pelo celular. Ela continuava com o seu, checando suas redes. Tentou um chamego, ela respondeu mas continuava com o celular na mão. Assim, ele ligou a TV em um canal qualquer enquanto a esperava terminar sua rotina virtual. Ao vê-la colocar, finalmente, o celular de lado, ele virou-se buscando um beijo, mas ela logo pegou o controle e reclamou do canal em que estava. Passava algum programa de reabilitação emocional de celebridades. Ou coisa parecida. Assim ela passou a procurar algum canal que fosse do seu agrado.

Ele deitou-se de frente e calou-se. Alguns minutos depois, ela virou-se para ele e tentou o beijá-lo. Ele respondeu com ressalva. Ela percebeu e perguntou o motivo. Ele apenas levantou-se e foi para a cozinha. Ela não foi atrás, ficou na cama e logo foi para fora, acender um cigarro. Na cozinha, ele chorou e sentiu a ausência dela em procurá-lo para saber o motivo da sua chateação. Engoliu o choro e foi para fora e a indagou o porquê de não ter ido atrás dele. A resposta que ouviu foi que se ele estava chateado, o melhor seria deixá-lo digerir a chateação, mesmo não entendo o motivo pelo qual se chateou.

Voltaram pra cama em silêncio. Ele não agüentou e disse o motivo: estava ali, tentando namora-la e ela entretida em outras coisas que não ele. E quando se desentreteu, reclamou da TV, sem ainda percebê-lo ali do lado. O silêncio logo voltou e se quebrou com a risada dela.

- Meu Deus, você é a mulher da relação!
- O quê?
- É isso: você é a mulher da nossa relação! – ria ela, se sentando na cama e apoiando as mãos no rosto enquanto gargalhava alto.
- Nem é pra tanto, vai... – ele sorriu e sentou-se junto.
- Ficou todo magoadinho porque eu não quis te comer agora, que eu fui insensível, que não fui atrás de você chorando na cozinha por conta disso... Você é minha mulherzinha!
- É sim... vem cá que eu te dou um trato, minha gostosa - disse fazendo voz grossa e virando-se para ele, puxando-o pelos cabelos.
- Ah, é assim? Então vem cá e chupa minha buceta, então! – respondeu ele.
- Só se você não chorar mais porque eu não te trepei com você...
- É só me ligar no dia seguinte que eu deixo o chocolate de lado. Agora cala a boca e me beija...

De volta ao carro, ela seguia gargalhando lembrando da noite anterior, quando pela primeira vez na vida um homem chorou com ela porque ela não correspondeu aos carinhos dele. Ele estava carente e com saudade e apenas não soube esperar 10 ou 15 minutos. E ela ria disso, como se a visse refletida nele.

- Vem cá, minha princesa... – ela o puxou e o beijou ao chegarem ao pedágio da rodovia.
- Hoje vou te comer, mas antes me traga uma cerveja, sua gostosa – ela ria ao entrar no carro.
- Escuta, vou sair com umas amigas, mas quero te ver de banho tomado e todo cheiroso na minha cama quando chegar, viu? – seguia gargalhando ao voltar pra casa.

A gargalhada dela era gostosa e ele gostava do som da sua risada.
Mesmo sendo ele o motivo delas. Principalmente ele sendo o motivo delas existirem.
No rádio, uma seleção de músicas que ela escolhera. Sempre teve uma boa mão para achar as músicas certas e aplicá-las nos melhores momentos. The Chi-Lites cantavam "Oh Girl" e ela ria e cantava junto, olhando para ele:

- Oooohhhh girl... I'd be in trouble if you left me now!! - e sorria e olhava para ele e cantava de novo.

Ah: naquela noite, assim como na anterior, eles não treparam. Ele era o homem dela, mas também sua mulher. Eles fizeram algo além, não como homem-mulher, mas como seres únicos, interligados, conectados, sem se preocuparem com nomenclaturas, definições ou padrões. Não era apenas sexo, era algo mais. Não dá pra chamar de transa, de trepada, de foda, de relação sexual, de coito... Dois corpos em uma alma? Duas almas dividindo o mesmo corpo? Ultrapassava preceitos, era algo mágico, eram dois mas eram únicos, gozando e se amando e rindo de besteiras que você certamente não entenderá.

- HaHaHaHaHaHaHaHa... – seguia ela no carro e ele simplesmente amava o som daquela gargalhada.

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A casca da lichia

Posted: | Por Felipe Voigt | Marcadores: 3 comentários

Sentado no sofá com uma bandeja de lichia ao meu lado. Geladas, ajudam a amenizar o calor da noite de domingo. É dezembro e o bom de morar no interior é ter acesso a elas de forma mais fácil. É uma boa fruta, que te cativa a conhecê-la ao olhá-la. A cor quente da casca contrasta com o branco cândido da fruta. É daquelas frutas únicas, que você nunca viu igual.

Com um cacho nas mãos, retiro uma. E antes de abri-la, me pego pensando nesse contraste que a lichia é. Sua casca é dura, rígida, áspera. Para abri-la, é preciso jeito e um grau de paciência ou a machucará. Não pode ir com muita sede, pois a casca pode se romper de forma muito incisiva e o conteúdo ficará prejudicado, vazando pelos dedos e sem poder consumi-lo com o mesmo torpor. E sempre há o risco de ter os dedos feridos com essa complicada casca que a cerca.

Mas também é preciso persistência e força senão encontrará outra pele por baixo da casca, ainda mais fina e frágil, mas que continuará a preservar o conteúdo. Ao se retirar a parte dura com muita leveza, a segunda pele se mostrará como uma nova barreira ainda mais complicada de se ultrapassar sem machucar o conteúdo.

Pois a lichia deve ser degustada plenamente, mesmo que no processo de abertura, machuque um pouco seu conteúdo. A forma de sorvê-la deverá ser com muita vontade, consumindo-a em uma bocada que quase a engole totalmente, fincando o dente até o caroço, sem medo ou receio ou amarras. Mas há que opte por mordiscá-la aos poucos, sem cravar completamente os dentes, sugando e mastigando pequenos pedaços até que ela se desfaleça nas mãos.

Muitos desistem de consumi-la, de sorvê-la, de degustá-la, de adocicar-se com seu conteúdo. Desistem pela dificuldade de abri-la. Muitos alegam não saberem ou não precisaram e optam pelas outras frutas de mais fácil consumo, onde suas cascas são rasas, superficiais e leves, o que facilita o acesso a poupa. São frutas comuns, que em qualquer caixote se encontra várias de vários tipos mas sempre iguais no consumo.

A lichia não. É única, exige dedicação, precisa de atenção e paciência. Que se ignore o visual áspero e rígido para provar o mais doce sabor e uma sensação de raro sabor único. Mas frequentemente é renegada, a ponto de perder o vivo do vermelho de sua casca, que com o tempo se transforma em uma cor negra e apagada. Mas o conteúdo segue o mesmo, esperando para ser, enfim, o alimento de uma boca sedenta. Sedenta daquele sabor raro e único, que só a lichia pode dar. É um sabor que nenhuma outra fruta comum irá proporcionar. Essas outras frutas até matam algumas sedes, só a lichia sacia e preenche.

Diferenciada pelo seu conteúdo; escravizada por sua casca.
A lichia é sua própria antítese.

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Por falar em saudade “não-sentida”...

Posted: | Por Felipe Voigt | Marcadores: 2 comentários

Confesso que não entendo esse estranho hábito que alguns cultivam de tentar matar a saudade que sentem. A renegam, desdenham sua existência, não permitem sua presença e se retiram de situações que a alimentam.

Não falo de qualquer saudade. Me refiro àquelas únicas, vividas e sentidas uma única vez na vida. Aquela que torna as demais apenas meras lembranças. Aquela saudade que faz você agir sem pensar, pois a verdadeira saudade não racionaliza. Onde há ponderação, onde há excesso de discernimento, não há saudade plena. Sua plenitude depende da inconseqüência, do medo, do exagero, da urgência.

Porque as piores saudades não são aquelas que duram horas e dias e depois acabam. As piores são as que te consomem longos minutos de intensa memória ao longo da vida. Seja em um supermercado revisitado, em uma rua repassada, um ambiente reconhecido, uma lembrança remexida. Ali você recorre aos beijos, aos toques, às trocas, às risadas, às incertezas e às promessas não-cumpridas pelo tempo que deixou de existir. O tempo inexiste, a intenção e a vontade não.

Mas os minutos logo se cessam pois a não permissão dessa saudade fará com que aquele que a sente recorra a distrações para fingir que ela não existe. O olhar vago se dissipa num piscar duro e num chacoalhar de cabeça, para que as lembranças voltem àquela gaveta do coração, de onde “nunca deveriam sair”. Mas saem, tem vontade própria, são independentes...

A saudade reside nos detalhes que apenas quem a sente é capaz de notar. Se tornam livres ao menor sinal de um cheiro que resgata noites intermináveis de cumplicidade. Se incendeiam - sem se queimarem - ao menor refrão de certa música ouvida durante o trajeto casa-trabalho.

Assim, a saudade se disfarça para ser aceita sem repúdio. Muitos nomes a saudade ganha para que possa existir sem medo, sem reticência. A trajam de preocupação, de culpa, de crueldade, de indiferença, de carinho, de amizade... Com isso, o “não posso sentir” se torna menos presente e o “sentir” mais permitido. Mas não menos perigoso.

Tentar matar uma saudade é o mesmo que a torná-la um sentimento imortal. Quanto mais a renega, mais ela se torna cruel e aparece onde você menos espera. E é por isso que quando você menos pode senti-la é onde ela mais vai surgir. Porque você pode mentir pra si por alguns dias, meses, anos... mas nunca conseguirá mentir para ela, pois ela te conhece. Ela é você.

O problema do “não-sentir” a saudade é que acham que, ao negá-la, ela não existirá.

Negar-se sentir essa saudade é como deixar de respirar para negar a existência do ar.
Funciona... por alguns momentos curtos, apenas. Logo o sufoco aperta e você se pega respirando novamente, outra vez. E se odiando por isso, de novo. Então o que fazer?

Apenas respire... e deixe alguém respirar também.

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Pobre prosa sóbria

Posted: | Por Felipe Voigt | Marcadores: 3 comentários
A vontade de me calar me fez recorrer à escrita. Pensei em escrever um poema, mas iria me repetir de novo, novamente. Tentei recorrer ao conto, mas não seria publicado. O desabafo muito implícito deixaria o silêncio mais ensurdecedor ainda. Apenas abri uma página branca e passarei a manchá-la com palavras. Sem intenção de ser lógico ou racional. Sem pretensão de ser bonito ou genial. Apenas para manchar o branco virginal da página. Às vezes funciona, muitas vezes não.

Já não sei aonde mais ir ou ao que recorrer. Bares e braços se fecham, bocas se calam, beijos se cessam, amores se esvaem. Há sempre alguém mas nunca ninguém. Nunca um alguém, aquele alguém que ninguém sabe apesar de saberem. Eu não sei mais. Sei que sei de algo, algo que sinto, mas sinto que não compreendo...

O amor não traz plenitude, não devolve a harmonia. Amor não traz paz nem traz distração. Se busca por isso, deve-se ter alguém que não te ame ao teu lado. Amor machuca, confunde, arde e consome. Amor não se ausenta, não se cala, não permite a distância. Errado quem pensa que amor é deixar ir. Amor requer presença, mesmo que apenas do lado de dentro e não ao lado. Deixar ir é ser covarde, assim como aprisionar é acovardar-se.

Amar permite a ausência mas não a inexistência. Amar tolera a concessão mas não a omissão. Triste daqueles que optam por amar entre aspas.

É segurar o peso através de arames escaldantes e farpados, que envolto nas mãos apenas fazem doer e sangrar. Mas o peso vale a pena ser suportado. Agarra-se com as mãos mas segura-se com a alma. A pele mal sangra, mas a aura se ensangüenta. E a lágrima apenas ilumina o caminho do sorriso por não ter desistido quando o mundo todo já teria sucumbido.

Quando se alcança um mínimo de harmonia interna, o estado de vigília passa a ser menos penoso... É uma busca pela normalidade perdida. A harmonia, a vigília, o velar, o zelar... conceitos que nunca se dissipam, tampouco se modificam. É o velar de almas sem velas, navegando no escuro da saudade, atingidas pela tormenta do desejo.

Os momentos de solidão serão aplacados se suportados.

Apenas se cale... calar-se não é deixar de sentir, nem apenas ressentir.
Apenas se cale. Zele pelo velar, vigie o sentimento.
Mas quem vigia o vigilante?
Quem zela o zelador?
Quem?
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Minha pequenita esperança

Posted: | Por Felipe Voigt | Marcadores: 6 comentários

Passei uma vida sem fé em nada. Em Deus, em algo maior, em qualquer coisa parecida com o tipo de fé que todos adoram mostrar. Nem mesmo em mim eu tive fé por muitos anos. Mas algo mudou e uma fé nasceu em mim. E me fez voltar a acreditar em mim como homem, como pessoa, como amante, como amigo, como companheiro de vida...

Essa fé se chama esperança. Uma pequenita – e não pequenina – esperança.

Não aquela esperança em algo superior, em algo feito pelo destino ou que faz crer que “tudo estava escrito”. Não. Essa minha esperança é algo vil, pequeno demais pra ser mostrado ou falado. Trata-se de uma esperança minúscula, aquela cuja qual todos refutarão. Me tentarão dissuadir desta fé. Muito me tacharão de idiota, de se rebaixar a níveis rasteiros demais até mesmo pra mim. Mas eu finalmente acredito em algo.

Todos precisam de fé em algo. Fé num santo ou em um Deus ou mesmo em dias melhores.
Eu tenho fé em uma rasa, injusta e vil esperança! Me tirar essa minúscula esperança é me fadar a uma vida sem vida...

Mesmo sendo uma esperança sem nenhuma base a não ser o que sinto e senti, vivi e vi. Mesmo que a própria esperança me olhe nos olhos e me diga que estou errado.
Ainda que a boca fale, os olhos não mentem jamais.
E eu aprendi a lê-los.

Que essa esperança seja cruel, desumana, que me dê todos os motivos para odiá-la e amaldiçoá-la ao vento. Eu ainda terei fé.

Que dure um dia, uma semana ou uma vida toda. Mas ainda a terei comigo. E ninguém, nem mesmo a própria esperança, poderá tirá-la de mim. Nem mesmo os piores dos cenários – e nisso sou graduado em projetá-los – poderão me tirar esse grão de esperança que mal cabe na mão, mas que será o suficiente para manter o peito batendo e a alma respirando.

É uma fé que me fará olhar para o céu e vê-lo da mesma forma que sempre o vi, mas que agora falta algo. Não no céu, mas aqui embaixo, aqui do lado.

E sei que esse mesmo céu será contemplado da mesma forma.
Não serei o único a erguer os olhos e revisitar tantos outros céus compartilhados.
Com a mesma esperança de, um dia, voltar a vê-lo com a magia que transmitia.
Não por não existirem mais estrelas, mas por faltar a luz que incendiava ao lado.

Que aquecia dentro.
Que falava no silêncio e escutava no encaixe perfeito.
Que transbordava pelos olhos mesmo quando fechados.
Mesmo quando a boca silenciava, eu aprendi a ouvir.
E continuo ouvindo, mesmo tudo sendo silenciado ao meu redor agora.

Que eu seja o maior dos tolos. O mais imbecil dos idiotas.
Que eu viva a cantar a mesma canção até a vida me cansar mais do que já me cansa.
Mas por um momento, uma fagulha de tempo, eu tive a esperança que precisava para continuar a viver.

E esperar.
Esperar pra ser amado da mesma forma.
Pra ser visto da mesma maneira.
Pra ser sentido em todos os sentidos.
Pra ser olhado e desejado.
Para que meu lobo volte a ter a sua lua.
Pra, enfim, poder voltar a sorrir e respirar.

Me negar sentir essa esperança é me sentenciar a uma vida sobrevivida sem gosto, sem som, sem calor, sem fé. Tudo está perdido, mas eu já não me importo mais.

Que eu faça das minhas lembranças minha própria igreja.
Que os gritos de saudade abafados sejam minhas orações.
Que minhas velas sejam minha não-desistência mantidas acesas.
Que o gosto do beijo seja minha hóstia.
E que a morte seja meu amém.



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