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Há algo sangrando em algum lugar

Posted: | Por Felipe Voigt | Marcadores: 0 comentários
São tempos estranhos
de posturas difíceis
de complicadas transições
Há uma insegurança a rondar
Uma melancolia latente
Um medo aparente
Sinto que há algo
sangrando em algum lugar

Agora aqui em casa
está tudo tão abafado
Paredes, pinturas
tecidos, concretos
quadros, retratos
torneira pingando
lixo acumulado

Aqui nesta casa jaz
uma porção de amores,
peças que ficaram para trás
Um anel de presente
Um caderno rascunhado
Um pingente, uma corrente
Um papel amassado
Um show em um bilhete
Um perfume semiacabado
Aqui nesta casa, amores em vão
Casa esta que outrora
fora chamada de coração

Por vezes cercado aqui
por parcos rostos conhecidos
Me pego perguntando
a esse estranho amigo
no espelho
qual a razão
de tudo que foi vivido

Embriagado e sozinho
me respondeu:

Para que você possa beber
em homenagem a alguém
Acompanhado deste alguém
ou sozinho sem ninguém
Que brinde a chance
que tem de viver alguém
E que de cada gole
desça o gosto
da ternura da saudade
e afogue o amargo da distância
que por ora invade
Mas hoje, tão somente hoje
que você possa apenas
se embriagar em alguém


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Preciso de uma cura

Posted: | Por Felipe Voigt | Marcadores: 0 comentários
É preciso uma cura
para esta taquicardia minha
que durante a noite, me acorda
durante o dia, me atormenta
Dentro de casa me aprisiona
fora dela, me acorrenta

É preciso uma cura,
mas onde a encontrar?
Se em tudo ao que me jogo
em busca desta vil cura
apenas me faz dela afastar?

Perdi minha poesia
há muito dentro de mim
Tentei suicidá-la
Se bem o fiz, não sei
Mas há muito não a encontro
mais dentro de mim

Talvez seja ela, me batendo
pedindo para sair
Pois quando a sufoquei
esperei seu perecer
em busca de não mais sofrer
e cessar o choro porvir

Mas a maldita sobreviveu
Em algum canto do peito
se escondeu
E quanto mais ela bate
impulsos em pulsos
implorando para sair
mais eu refuto e reluto
E a acalmo por ora
com estes versos de agora
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Errados olhos cerrados

Posted: | Por Felipe Voigt | Marcadores: 0 comentários
Me pedes, então,
para que te escreva
sobre teus olhares,
mesmo os de tristeza
que me causam fortes
pesares

Mesmo quando escudados
sob lágrimas órfãs
há em ti dois olhares
E teus olhos cerrados
são as próteses erradas
que modificam tua beleza
mesmo trazendo à tona
tanta coisa de ti
Segues bela
mas apenas um deles
te torna rara
te faz fera
te revela à vera

Estes olhos que hoje revi
são os mesmo que trago
cravados em mim
como os mais belos
que vejo, verei e vi
Há tranquilidade
na tempestade
que eles afugentam
ao se revelarem
no cair do teu pranto alegre

Te contemplar é uma arte
envolta por todo mistério
causado por teu olhar

Mas são dos teus olhares
de final de semana
os que mais temo
Os escondem de ti
e mascaram teu ser
apesar de protegerem
aquela que ainda resiste
aqui e aí dentro

Reconhecendo o mais belo
busca-se te reconhecer ali atrás,
entrincheirada em sua defesa
de se esconder para sobreviver
o tempo que for necessário
para, enfim, se revelar

Teus olhos, de uma vez entendas,
são a síntese de tua essência
que navega à deriva
no conturbado mar
que carregas em ti

Quando necessário,
faça deles teu submarino
para te guiar nas águas
mais negras e profundas
Mas saibas que mereces
apenas um veleiro sob o luar
a contrastar com o azul da calmaria
que evidencia o verde do teu olhar

Não os deixe se acinzentarem
pois precisamos deles
com essa luz a irradiar
feito farol em meio à neblina
onde buscamos nos aportar
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Amor em tempos de pausa

Posted: | Por Felipe Voigt | Marcadores: 1 comentários
Trançando as pernas,
rumava à própria sorte
um homem rouco a desafiar
as esquinas da morte
com seus berros à revelia
de quem caminha sem norte

- Como ousam dormir
sem perseguir
o que é o amor, miseráveis?
Tragam-me Helena
ou não mais me calarei!

Com braços armados
por punhos sangrados,
lutava ele contra o vento
desferindo golpes sem alvos
e gingando o corpo marcado
em direção aos carros estacionados
E as ruas vazias se enchiam aos poucos
por dezenas de acordados pelos berros
que de suas casas saiam atordoados

- Saiam todos e acordem
e vivam, covardes!
Devolvam-me Helena
e nunca mais aqui virei!

E as praças se enchiam
com suas pequenas lamúrias
mescladas com risos abafados
por choros contidos
em passos falsos

Muitos o questionavam:
- Mas o que está acontecendo?
- O que o faz gritar, homem?

Seguia gritando e bebendo
e chorando e vivendo
sem ter mapa indicando
a espera de alguém o esperando:
- A flecha me fora novamente lançada
A lança de novo atirada
Os ecos da dor voltaram
agora com novas marcas
Helena, por que, Helena?

Apontado por tantos que o viam,
bradava ele sem se importar
com o que falavam
ou sobre o que riam
Precisava apenas caminhar
e gritar e soltar:

-Acordem e abandonem suas felicidades,
miseráveis sem amor!
É tempo de perder e barganhar
À espera de colo, de magia, de amor!
Tragam-me de volta Helena!
Me devolvam a magia de Helena, porcos!

A multidão o perseguia
com açoites de rancor
Enquanto o cercavam
ouvia-se abafados
seus berros uivados:
- Hei de morrer
na certeza de um fato:
a vida me trouxe
muito mais que um fardo!
Por favor, não machuquem
mais Helena!

As dezenas viraram milhares;
as centenas, milhões
Todos a acoitá-lo com desprezo
Tantos a olha-lo com desdém:
- Cale-se, não precisamos disso!
Volte para seu mundo imperfeito
e se afogue nas próprias mágoas

Pedras atiradas o atingiam
mas não o machucavam mais
do que as farpas da saudade
Lixos e entulhos jogados
não o manchavam mais
do que um amor protelado
E ainda assim, ele seguia
Apesar disso, ele aguentava
as sentenças desferidas:
- Pagarás o preço, triste homem
Viverás sem, apenas a sofrer
Serás um mártir sem voz,
esquecido às margens do tempo

Abraços eram negados
e beijos indeferidos,
mas todo ali estavam
apenas a amaldiçoá-lo
ao ouvi-lo:
- Amei e amo
mais do que qualquer um
poderia ter um dia amado
Pelo amor dos deuses:
cadê minha Helena?

Ao final, uma rua sem saída
Atrás dele, uma horda acordada
Dentro de si, a vida pausada
de um amor em stand by

Ajoelhado, apenas suspirou:
- Não calar-me-ei ante vossas ignorâncias
Gritarei até ter de volta
o amor de quem um dia me amou

Fechou os olhos a esperar
os desfechos dos golpes
da vida a se esvair no ar
em seu último brado ofegante:
- Me arranquem de mim,
mas não me tirem mais Helena!

Mas somente uma mão
o atingiu na testa, tão suave
quanto o pouso de borboleta
em flor recém desabrochada

- Pronto, estou aqui, tenha calma
Alivie teu peito agora
E traga paz à tua alma
Preciso de ti,
mas não dessa forma

E a multidão desapareceu
E a rua virou leito
E ali ele deitou, adormecido
sentindo a dócil mão
que o acalentava:
- Helena... Helena!


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O cinza da noite

Posted: | Por Felipe Voigt | Marcadores: 1 comentários
Ninguém é feliz às quatro da manhã
A vida não começa às seis
Da manhã

A vida apenas se esvai
às sete da manhã
O mundo apenas gira.
Às oito
da manhã

Abri meus olhos
e minhas retinas perderam
a percepção das cores
Tudo estava cinza, opaco
sem vida, apagado

Nunca a iminência da eminente morte
se agigantou tanto em minha frente
e eu nunca quis tanto esse querer
de poder finalmente morrer

Por onde meus olhos acinzentados olham
só enxergam mentiras e traições
injustiças, rasteiras e mutilações

O desgosto e o nojo das ambições
que rastelam sentimentos
causando apenas dor e sofrimento
aos que em vão tentam fazer sorrir

Fecho os olhos com a certeza de que perdi
Perco para tudo o que sempre lutei contra
Para o que tanto me dediquei a combater
Perco para a violência das palavras
Para a crueldade das marcas
Para os golpes dos braços
E as chicotadas das lágrimas

Sufocado, perco a reação
Fecho os olhos sabendo
Que não há pior forma de se matar
Do que se impor viver a cada dia
Neste mundo sem cores e sem gosto
Tentando sem sucesso segurar o vômito
A cada vez que a lança da memória
É contra mim de volta atirada

A lua perdeu seu lirismo
As canções estão caladas
Saio do quarto, volto pra sala
A cabeça roda e me ataca
a escrevo o que não devo
ao beber o que não posso
ao chorar o que não deveria
mas sinto

E eu sinto muito
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O pavio de um beijo

Posted: | Por Felipe Voigt | Marcadores: 1 comentários
Enquanto pingos reluziam e abafavam a luz que se aquecia nos postes
E se esgueirava por entre as folhas das árvores molhadas, o mundo parava
Em torno daquilo que sempre foi o condutor da convergência de essências passadas
Lutando contra o inelutável destino da não cessão do não definitivo

Enquanto carros parados esfriavam a rua que se banhava pela enxurrada cerceante
De passos apressados de corpos que buscam abrigo dos pingos
O relógio se armava contra o tempo disponível aos abrigados e molhados sem perigo

As risadas dos transeuntes que paravam nas calçadas e se jubilavam
Em torno de copos e garrafas e mesas e cadeiras,
O silêncio as lavou em cumplicidade aos ouvidos que nada mais ouviam
a não ser o bater da inevitável sensação causada e buscada e resgatada

Passaram-se horas esperando aquele canto
Passaram-se meses aguardando aquele encanto
Viraram-se segundos consumados em instantes
Deixaram-se certezas enterradas sob dúvidas
Seguiram-se vidas sem definirem quais seus rumos

Os olhos se fecham às mãos nos ombros drenando o fardo fadado a pesar
Sobre quem se refugia nas próprias sombras e descarrega sonhos e desejos disformes

As mãos à face resgatam o os olhos mareados reclusos
O brilho se faz arder na inocência do medo da perda do controle
Daquilo que já não se controla e nem se nega e nem se comporta e nem se espera

Desse medo, fez-se a coragem; daquela vontade, se fez a ação;
As bocas entreabertas se tocaram em sintonia,
Contrastando com o desafino da respiração

Um pedido de uma declaração feita quase sussurrada e encarada
Acendeu-se, então, a rua e parou a chuva que já não mais molhava porque não importava

Enquanto os carros se separam após os corpos se separem, cada um voltando
Para onde deveria, mas não gostaria de estar sem a companhia daquele que se foi
Refazendo momentos, repensando desejos, transformando tudo novamente
Com a velha bomba pulsando forte e consternando o caminho conhecido de sempre

No leito, já refeitos dos goles tomados e dos pingos recebidos e no rodar do relógio
Nas pequenas mãos surgiu o gozo rápido, das grandes mãos nasceu de volta a poesia
Causados por segundos de intensa lembrança de algo julgado adormecido
E que fora novamente despertado sem nunca ter inexistido ou esquecido
Mas que precisa ser enganado e disfarçado para que os eixos não se colidam
Desenlaçando o inevitável destino de coexistência à distância de um peito

No orgasmo da poesia, no gozo das palavras, cada um ama por onde pode
Existem beijos que deveriam ser chamados de beijo pavio
E o efeito da explosão só impacta aos que conseguem se impactar ainda
Com a pequena beleza triste de um amor que faz sofrer ao tirar todo sofrimento
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À quatro mãos e não terminado...

Posted: | Por Felipe Voigt | Marcadores: 0 comentários


I
A vida agora num longo hiato
Revés que não refuto, acato imediato
Seguirá assim no vácuo, sem respirar
Este corpo embebido num triste esperar
Pois esperar não é recuar: é amar sozinho

A ausência será tão mais árdua
Seguirei sempre fugindo do mundo
Para conseguir em paz chorar um pouco
Desta tristeza profunda como nunca
Não quero mais a companhia que macula

II
Na louca contradição, que mesmo na solidão
Hiato não é um, são dois
A boca se abre na pronúncia
Quer o apoio da outra letra que vem depois
Que também seria só, se não fosse junto

E como já não se é mais um
A dor é compartilhada, mas nunca dividida
Os braços procuram os mesmos abraços
Os beijos querem os mesmos lábios
Só assim, em beijos e abraços reconhecidos
Ama-se junto, mesmo que separado

...
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A ferroada do meu medo

Posted: | Por Felipe Voigt | Marcadores: 1 comentários

Todo esse medo de agora
essa agonia que me assola
e me bate feito estaca nova
cravada em terra crua
Pois desconheço alguém sozinho
que esteja feliz em ser assim
Temo seguir desta maneira
até minha vida ter seu fim

Quem cuidará deste corpo meu
quando a mente minha sucumbir?
Quem guardará minhas coisas?
Quem irá olhar por mim?

Inda jovem, optei
por manter-me sempre aqui
Sempre perto, sempre ao lado
Ao redor dos que junto nasci
Temo a ida de minha mãe
Em seguida a de meu pai
Minhas irmãs terão suas proles
Não quero ser um peso a mais
Mas por ora, sigo inerte no terror
Ofuscado pela aferroada do temor
Impactado pelo medo iminente
Atordoado por essa vespa insolente

Se alguém ainda achar as linhas minhas
Quando alguém reler os versos meus
Responda agora, sem demora:
Quem guardará minhas coisas?
Quem virá olhar por mim?


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Tragados pelo tempo

Posted: | Por Felipe Voigt | Marcadores: 0 comentários


Passei o dia hoje a beber
Ontem virei a noite assim
É só o que sei fazer
quando estás longe de mim

Tropeço no vão
dos meus pensamentos
Ouço vozes da indiferença
causadas pela ausência
deste novo afastamento

Neste novo caminho que por ora
teu cotidiano te faz percorrer
Recaminhas antigos amores
Revisitas antigas saudades
E faz com que tu me percas
nos vãos dos teus sentimentos
Já não sentes mais minha falta
Já não buscas mais meu afago
Já não pensas mais tanto em mim
Já te cansas de novo deste fardo

Todas as dúvidas me corroem
Tantas certezas me consomem
que me jogam de novo de volta
ao frio vazio da minha companhia
A cada semana tragada pelo tempo
neste cinzeiro chamado vida

Suplico ao vento e ao tempo
enquanto fujo do convívio
dos poucos que me cercam
para chorar escondido
a dor de um amor fugido
Que tragam a fagulha de um alento
Que te façam ouvir o meu lamento

Venha logo e me cale
Quebre tudo e me fale
Cale aquilo que me quebra
Venha agora e me tome

Mas por favor, não se tarde
pois já não aguento mais


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Meu livro...

Posted: | Por Felipe Voigt | Marcadores: , 3 comentários

“Eram 69 poemas vagabundos” é a prova de que a obra pode – e deve! - sempre superar o autor. Previsto para serem apenas, como o nome diz, 69 poemas, acabou criando força e transbordou as páginas e alma daquele que os escreveu. Ao longo de 102 textos, publicados na ordem em que foram escritos (exceto o primeiro e o último), verá toda minha pretensa tentativa de traduzir o que sinto  e senti  em noites afogadas em lágrimas derramadas sozinhas em meu sofá. Algumas boas, muitas ruins...
Os sentimentos foram e são reais, por isso a desnecessidade de datá-los. 
Eram 69... foram 102... e serão muito mais. 
Até quando eu conseguir respirar mesmo me faltando o ar.
(Com prefácio do Paulão das Velhas Virgens)

A cada livro vendido, uma cerveja será bebida! É isso mesmo: a cada livro comprado, receberei apenas o valor de uma cerveja de lucro. Ou seja: não ficarei rico mas beberei mais. Ajude este pobre bêbado, rouco e louco a continuar bebendo, enrouquecendo e enlouquecendo...

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Ode ao teu cheiro

Posted: | Por Felipe Voigt | Marcadores: 2 comentários

O cheiro é dos amantes
a melhor máquina do tempo:
limites desconhece
barreiras transpassa
e faz da tua pele
o cheiro da pele de outro

Teu cheiro representa, pequena
tua presença regressa
tua presença fresca
Teu cheiro é tua presença

Pois se de cada respirar
para dentro te trago,
a cada penoso expirar
leva embora o afago
que me envolve ao inalar
teu aroma em que naufrago

Desafios as flores
a tua essência copiar
Indago os vinhos
o mesmo torpor causar
Refuto os frascos
incapazes de armazenar
esta sóbria embriaguez
que me faz querer te cheirar

Teu cheiro é a cura
das mal dormidas noites
a buscar por abrigo
nas reminiscências
tuas comigo

Ao dormir, procuro por ti
nestes bojos que me deixou
que estavam a segurar
teus seios que agora estou
em memória a acariciar

Neles teu cheiro incendeia
minha cama, morada recente
do amor que compartilhamos
enquanto apenas nos olhamos
a esquecer do mundo à tangente

De todas as saudades que sinto,
a mais gostosa é a saudade
que tenho de te respirar



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O apogeu de uma vontade

Posted: | Por Felipe Voigt | Marcadores: 0 comentários
Olhe agora para fora
A Lua hoje está mais perto
De certo, ficou sabendo
Que minha vida anda um deserto
Veio ver se era verdade
Toda essa minha vontade
Que sinto em meu peito aberto

Quantas vezes não me viu
Aqui de baixo te olhando?
E quantas vezes não me ouviu
No meu canto, soluçando?
De tanto ver minha saudade
Aproximou-se com austeridade
Por não aguentar me ver chorando

Mesmo longe, eu te entendo
De estar mais próxima gostaria
Mas tua presença durará pouco
Tão logo a noite se acabe em dia
Aproveite tua proximidade
Esqueça, pois, minha fragilidade
E aqueça um pouco esta noite fria

Olhe, Lua, hoje te imploro
Me ouça com atenção
Sei que pode me ouvir
E escutar meu vil sermão
Percorra esta cidade
Encontre a cumplicidade
Daquela que partiu meu coração

Invada aquelas portas
Quebre as barreiras do tempo
Nos transporte ao passado
Aos dias que bem me lembro
Nos banhava sua claridade
Nos aquecíamos na eternidade
Que durava aquele momento

Quebre o silêncio do frio
Dure o tempo de um cigarro
Enquanto aceso e fumado
Diga a ela que me agarro
Em toda minha ingenuidade
Da minha franca lealdade
Deitado agora em meu carro

A faça olhar para cima
E te ver como eu te vejo
A faça sentir o clima
Do sentimento que apedrejo
Com golpes de crueldade
Por lembrar da intensidade
Do nosso mais tenro beijo

Roube do seu rosto um riso
Em sua pele cause um arrepiar
Ao sentir o vento frio
Que a acompanha ao te olhar
Mostre a invencibilidade
Da nossa fiel realidade:
Por ela ambos iremos esperar

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Incansável escudeiro

Posted: | Por Felipe Voigt | Marcadores: 1 comentários


Pois de todos os companheiros
Foste o mais incansável e leal

Camuflou-me das trincheiras
Da ignorância e da moral
Quando viste que iria afundar
Derrubou-me para fora da nau
Para preservar-me a sanidade
Mesmo em tua insana irrealidade
Fez-me, por vezes, até antissocial

Em tuas linhas, protegi-me
Em teus parágrafos, encontrei-me
Em tuas capas, refleti-me
Em tuas páginas, derrubei-me

Olhas-te me de longe
Em tenebrosas noites
Quando nem mesmo eu
Suportava meus acoites
Estes rompantes que soam
E no meu vazio ecoam
Como irresistíveis convites

Soubeste me ler quando te li
E quando te fechei, me abri
Pois te abri para não me fechar mais

Nos piores dias de solidão
Onde perdido, ceguei-me
Quando a manhã e seu clarão
Sem ventura, violavam-me
E na escuridão em que me abrigo
Agarrando-te tal ancora em meu umbigo
Nem assim abandonaste-me

Quando me acovardei, lutaste
Quando me joguei, segurou-me
Quando me segurei, empurraste
Quando me matei, ressuscitou-me

Com lágrimas minhas
Molhei as histórias tuas
Com mãos suadas, manchei-te
Ao te abraçar, amassei-te
Sufocado, pois, pela saudade
E inebriado pela vontade
Que em teu silencio me gritaste

Pois de todos os companheiros
Foste o mais incansável e leal

(pelo Dia Mundial do Livro)


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Quando a poesia aparece

Posted: | Por Felipe Voigt | Marcadores: , 3 comentários
Escrevo poemas mas não sou poeta, pois o poeta tem o dom de refutar o próprio dom. Tenho medo e nojo daqueles que se auto-intitulam poetas. Tomam para si algo que nunca foi deles. A poesia não é do poeta: o poeta é quem pertence à poesia.

O poeta é aquele que tem respostas para dúvidas que nem sabemos que teremos.
Ele encontra no ar o som que não corta o silêncio, sente na pele o frio que o verão não traz, ama aquilo que nem mesmo o próprio aquilo é capaz de amar.

A poesia não te traz respostas, nem te enche de dúvidas: ela apenas é apreciável, mastigável, você a engole, a consome, é consumido, é consumado. A poesia se faz em um pequeno sorriso que poema nenhum é capaz de imitar. É o olhar que soneto algum tem o poder de igualar.

E mesmo assim o poeta segue nesta heresia de tentar traduzir a poesia. Ele a transforma em poemas, em músicas, em retratos, em esculturas. Mas como transformar em algo palpável aquilo que tem o poder de transformar aquele que se permite o pecado do sentir? Apenas esses pecadores são capazes de enxergar a poesia onde ela não existe materialmente.

A poesia não é a tradução do que se sente: poesia é justamente o sentir.
Há quem passe uma vida poetizando sem saber que é poeta por direito adquirido.
Há quem veja a poesia sem saber que a mesma assim se denomina.

Não é olhar uma criança e ver apenas uma criança: é saber identificar toda a jovialidade naquele sorriso de ingenuidade e se banhar dessa ingenuidade como quem limpa o corpo da sujeira da maturidade. A criança é o primeiro poeta do mundo, onde cada brincadeira se transforma em um poema.

Não é beijar uma boca e apenas sentir desejo: é usar essa boca como porta para entrar em um sentimento único que traz sensações nunca sentidas e ali se alojar feito um mendigo carente em busca de um peito-abrigo. Não é buscar um abraço como quem espera que tais braços que furtem do mundo que te cerca: é fazer desse encaixe algo que transcende a barreira do tempo e do espaço, se tornando um mundo à parte acessível em um simples aroma, em uma leve brisa da saudade.

A poesia é o lirismo do ser enquanto respira.
O poeta é o ser que perde o ar ao tentar respirar.

Triste daqueles que tacham de loucura, viagem, perda de tempo ou ingenuidade o ato de poetizar pequenos momentos do seu cotidiano. A esses estão guardados apenas o leve sabor de lamber a vida.

Mas o poeta não quer apenas lamber: ele engole, sente rasgar a garganta com cada gole, cada pedaço que mastiga do seu viver. A poesia que suja os dedos e o faz lambê-los; a poesia que escorre a boca ao embriagar-se com seu líquido-lírico.

Há dois anos a poesia me transcendeu. Me fez cometer a heresia de tentar traduzi-la. Sentir eu há muito já a sentia. Apenas não conhecia seu nome. Muito prazer, pois.

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Todo entregue a você

Posted: | Por Felipe Voigt | Marcadores: 0 comentários

No banco do teu carro, um dia
você me olhava sem perceber
que eu já estava entregue
Todo entregue a você

Um sorriso, uma timidez
Uma gracinha para disfarçar
E no silêncio que se seguia depois
Era só você me tomar

Paro o motor, te toco o rosto
Por toda vida ou por uma hora
No seu tempo, na minha casa
Apenas fique, não vá embora

Te deixo sozinha apenas um instante
Quando desci, passei na sua frente
E consegui pegar o teu sorriso
Se escondendo atrás daquele vidro
Nunca te vi assim tão inocente

Segurei tua mão e você saiu
Por baixo do cabelo você sorriu
Queria te abraçar e te beijar
E ao me olhar, você me permitiu

Nesse momento você fez
o mundo desaparecer
Tive vontade até de chorar
Teu beijo me fez querer viver

Paro o motor, te toco o rosto
Por toda vida ou por uma hora
No seu tempo, na minha casa
Apenas fique, não vá embora

Acho que chorei e você percebeu
Me abraçou forte e me entendeu
Daqueles braços eu nunca cairia
Adormeci até o raiar do dia

Mas de repente eu fui acordado
Olhei em volta e não te encontrei
Será que fui eu a perturbar teu sonho
Ou a realidade em que me entreguei?

Agora os olhos eu não fecho mais
Não sei se quero te encontrar assim
Preciso tanto te encontrar de novo
Será que você quer o mesmo de mim?

Paro o motor, te toco o rosto
Por toda vida ou por uma hora
No seu tempo, na minha casa
Apenas fique, não vá embora
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Saudade é um céu nublado

Posted: | Por Felipe Voigt | Marcadores: 0 comentários
Um dia, madrugada fria
noite inacabada,
negro céu triste
uma Lua conhecida
chegou iluminando feito dia
aquela solitária vida minha

Lentamente afastou as estrelas
Subitamente tornou-se rainha
De todas as nossas madrugadas
Que tive, tenho e teria

Quando o dia nascia
ela se recolhia
na figura de uma mulher
que me abraçava
enquanto o sol me clareava
e quanto mais exposto
mais ela me acobertava

A Lua reflete a luz do Sol
mas essa minha Lua
reflete junto seu calor
Hoje fui banhado
novamente por esse luar

Afastou o frio da solidão
Aqueceu a face cansada
Iluminou o cair da lágrima
Refletiu o alívio do sorriso
Me mostrou também sentir
minha falta

Nossa dança
segue ritmos diferentes
compasso desencontrado:
ela me banha lá de cima
eu a saúdo aqui de baixo

Sem estrelas cadentes
somente almas carentes

A distância entre nós
não é entre céu e Terra
É a distância entre dois peitos
que não se traça em uma reta

Quando ela não desce,
fervido em ebulição ascendo
e permaneço ao seu lado esquerdo
feito um mero ponto vermelho

Quando chegar, quero que me cubra
pois ainda sou sua estrela rubra
cuidando sozinha do nosso céu

Lua menina, Lua pequena
Me diga, pequena Lua:
posso te chamar de Helena?
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Chove pra caralho

Posted: | Por Felipe Voigt | Marcadores: 3 comentários
O problema é quando chove
Quando chove aqui fora
deságua de dentro de ti

Chove tanto
que o adormecer acontece
tão logo o corpo amolece
pelo cansaço do desaguar

Teu deságue
não é fraqueza
Pois só deságua
quem muito represa

Teu cansaço
é da reincidência
onde tudo acontece de novo
velhos hábitos em novas vidas
velhas cartas em um novo baralho
Aquela mesma coisa
A mesma coisa de sempre
Caralho, caralho, caralho

Despeça-se hoje
deste ano que ainda
não se findou
Fatalmente ele nunca
se findará, enfim

Adeus agora, velho ano...
Tinhas tudo para ser
único e inesquecível
Tornou-te mais um na fila
dos padrões descartáveis
apenas

Mas por hoje desague
represe menos, deixe chover
Teu sorriso abrirá clareiras
de luz, de alegria, de viver
Um alívio em meio às nuvens
que por ora conduz
Isto não é tua vida
É apenas o pus
Elimina-o

E ao chover aqui fora
esta tormenta que cai de ti
lembre-se de respirar
pois tuas lágrimas
serão o amanhecido orvalho
deste teu novo despertar
Chore, sorria e repita
Caralho, caralho, caralho!

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Em busca da capa perfeita

Posted: | Por Felipe Voigt | Marcadores: , 4 comentários
Pois bem: estou terminando de editar, de forma independente mesmo, um livro com meus poemas. Muitos já os leram aqui no blog, mas no livro terá maioria inédita. E essa porra toda enche o saco pra caralho! Correr com registro, com diagramação, escolher a ordem dos poemas e tudo mais... Sério: chega a desanimar e querer mandar tudo pra casa do caralho. Até porque o medo de ninguém comprar algo escrito por você é o que mais retrai. Ler por aqui é fácil, basta clicar no link e pronto. Mas se dispor a pagar por algo meu é algo que me deixa receoso.

Agora estou na fase da capa.


Sempre gostei muito desta pintura do Denis Peterson acima. A foto fala mais que laudas e páginas de texto. O cansaço exposto, a desconstrução social, a degradação moral... Ele está cansado. De tudo. Da vida, dele mesmo, dos outros. Não está deitado, descansando. Está caído, sem forças. Muitos o olharão como vagabundo, não entenderão seus motivos de estar ali, jogado... E ele não quer olhares de piedade, apenas precisa cessar o cansaço. E o fato de ser uma pintura e não uma foto só transforma ainda mais a imagem em poesia pura. O mesmo acontece com a figura abaixo. Elas falam sozinhas, sem legendas. É de uma sensibilidade rara encontrar pinturas assim, que ultrapassam o real e o surreal. Elas existem sozinhas, independente do que acharão delas. O cara na foto acima sou eu. Na abaixo também.


Entrei em contato com o artista e por ora não tenho condições de pagar o valor que ele pede para usar sua pintura. E olha que ele foi camarada e sacou que era uma publicação independente e colocou um valor baixo para um trabalho com essa qualidade. Apenas não consigo agora, outro dia conseguirei. Porque ele é foda - clique e veja se estou errado!

Sendo assim, me indicaram fazer uma foto na mesma linha e me usando como personagem. Não fico confortável com a ideia de ter um livro meu com minha foto na capa. Pareceria capa de disco – sim, ainda uso “disco” ao me referir aos álbuns lançados por cantores e bandas. Como não sou artista, me botar na capa seria egocentrismo demais, mais até do que meus próprios poemas.

Enfim: o que quero com tudo isso? Que você me ajude, caralho!

Conhece alguma fotógrafa? Um fotógrafo? Que tenha a sensibilidade de captar o que vi nessas figuras e reproduzir uma com a mesma emoção e poesia? Você é um artista da fotografia e tem algo parecido? Quer fazer uma parceria comigo? Te pago uma cerveja depois... pra dividi-la comigo.

Keep Reading...

Confesse que sou eu, não aceitarei que não sou

Posted: | Por Felipe Voigt | Marcadores: 1 comentários
A não-correspondência
de um amor transforma homens
em meninos perdidos
pedindo clemência
em etílicas dosagens
até serem abatidos

Em busca desta absorvência
que marca feito tatuagens
todos acabam absolvidos
pois toda essa urgência
remete nossas origens
de quando adolescidos

Tua imposta abstinência
deixa-nos mais e mais selvagens
feito pássaros recém-aduzidos
ao céu da nossa urgência
por conversas e bobagens
que cantamos advidos

Mas a triste condolência
deste quarto escuro que tens
não mantém adormecidos
os fachos da impertinência
da esperança de jovens
seres que amam desiludidos

O amor é uma petulância
Uma brincadeira de rotulagens
Mentindo, somos desmentidos
Tentando negar a existência
De músicas e mensagens
Que nos seguram convergidos

É o orgasmo do último primeiro beijo nosso

Keep Reading...

Não sei mais distinguir

Posted: | Por Felipe Voigt | Marcadores: 1 comentários
Por que toda escolha
resulta em uma renúncia?
Não me foram dadas escolhas
Essa dor que não termina
apenas acaba comigo

Minhas estruturas abaladas
por um golpe inesperado.
Estava o peito exposto
e cheguei a acreditar
que ainda pudesse
Não pude
Por que?

Não há mais o verde da relva verde,
nem o rosa do botão de rosa
Apenas as nuvens que trouxeram
o cinza do inverno de volta
e as lagrimas que chovem
neste chão de terra batida,
onde abatido me repouso
e não vou mais me levantar

Restou essa pretensa vontade
de se perpetuar na vida de alguém

Tem tanto tempo que esse choro
represo que de tanto que escorre
já nem sinto seu gosto de soro
Só sei que parar não consigo
Também nem sei se quero
ou se preciso

Porque ando cansado de mim
Cansado de ser assim
E dessa dor sem fim

Mas é quando me auto-saboto
E ajo como sempre agi
Que preciso que me ignore
E me resgate de mim
E não aceite meu não
Nem concorde com meu sim

Apenas desdenhe
E não consinta
Mesmo que eu peça
Para sentir o que sinto
Não sinta: minta!

Me ignore
Me esnobe
Mas me socorra
E me salve de mim

Não quero voltar pra lá
É tudo muito frio
Tudo muito vazio
E já estive lá
Por tempo demais

Mesmo que te faça chorar
Que te faça vomitar
E querer ir embora
Não me deixe aqui

Preciso de um antídoto
E você é meu veneno
Que funciona contra mim

Seque meu chorar
Por favor
E me tire um sorriso
Sim?

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