Trançando as pernas,
rumava à própria sorte
um homem rouco a desafiar
as esquinas da morte
com seus berros à revelia
de quem caminha sem norte
- Como ousam dormir
sem perseguir
o que é o amor, miseráveis?
Tragam-me Helena
ou não mais me calarei!
Com braços armados
por punhos sangrados,
lutava ele contra o vento
desferindo golpes sem alvos
e gingando o corpo marcado
em direção aos carros estacionados
E as ruas vazias se enchiam aos poucos
por dezenas de acordados pelos berros
que de suas casas saiam atordoados
- Saiam todos e acordem
e vivam, covardes!
Devolvam-me Helena
e nunca mais aqui virei!
E as praças se enchiam
com suas pequenas lamúrias
mescladas com risos abafados
por choros contidos
em passos falsos
Muitos o questionavam:
- Mas o que está acontecendo?
- O que o faz gritar, homem?
Seguia gritando e bebendo
e chorando e vivendo
sem ter mapa indicando
a espera de alguém o esperando:
- A flecha me fora novamente lançada
A lança de novo atirada
Os ecos da dor voltaram
agora com novas marcas
Helena, por que, Helena?
Apontado por tantos que o viam,
bradava ele sem se importar
com o que falavam
ou sobre o que riam
Precisava apenas caminhar
e gritar e soltar:
-Acordem e abandonem suas felicidades,
miseráveis sem amor!
É tempo de perder e barganhar
À espera de colo, de magia, de amor!
Tragam-me de volta Helena!
Me devolvam a magia de Helena, porcos!
A multidão o perseguia
com açoites de rancor
Enquanto o cercavam
ouvia-se abafados
seus berros uivados:
- Hei de morrer
na certeza de um fato:
a vida me trouxe
muito mais que um fardo!
Por favor, não machuquem
mais Helena!
As dezenas viraram milhares;
as centenas, milhões
Todos a acoitá-lo com desprezo
Tantos a olha-lo com desdém:
- Cale-se, não precisamos disso!
Volte para seu mundo imperfeito
e se afogue nas próprias mágoas
Pedras atiradas o atingiam
mas não o machucavam mais
do que as farpas da saudade
Lixos e entulhos jogados
não o manchavam mais
do que um amor protelado
E ainda assim, ele seguia
Apesar disso, ele aguentava
as sentenças desferidas:
- Pagarás o preço, triste homem
Viverás sem, apenas a sofrer
Serás um mártir sem voz,
esquecido às margens do tempo
Abraços eram negados
e beijos indeferidos,
mas todo ali estavam
apenas a amaldiçoá-lo
ao ouvi-lo:
- Amei e amo
mais do que qualquer um
poderia ter um dia amado
Pelo amor dos deuses:
cadê minha Helena?
Ao final, uma rua sem saída
Atrás dele, uma horda acordada
Dentro de si, a vida pausada
de um amor em stand by
Ajoelhado, apenas suspirou:
- Não calar-me-ei ante vossas ignorâncias
Gritarei até ter de volta
o amor de quem um dia me amou
Fechou os olhos a esperar
os desfechos dos golpes
da vida a se esvair no ar
em seu último brado ofegante:
- Me arranquem de mim,
mas não me tirem mais Helena!
Mas somente uma mão
o atingiu na testa, tão suave
quanto o pouso de borboleta
em flor recém desabrochada
- Pronto, estou aqui, tenha calma
Alivie teu peito agora
E traga paz à tua alma
Preciso de ti,
mas não dessa forma
E a multidão desapareceu
E a rua virou leito
E ali ele deitou, adormecido
sentindo a dócil mão
que o acalentava:
- Helena... Helena!