Saudade é um céu nublado

Posted: 5 de fevereiro de 2012 | Por Felipe Voigt | Marcadores: 0 comentários
Um dia, madrugada fria
noite inacabada,
negro céu triste
uma Lua conhecida
chegou iluminando feito dia
aquela solitária vida minha

Lentamente afastou as estrelas
Subitamente tornou-se rainha
De todas as nossas madrugadas
Que tive, tenho e teria

Quando o dia nascia
ela se recolhia
na figura de uma mulher
que me abraçava
enquanto o sol me clareava
e quanto mais exposto
mais ela me acobertava

A Lua reflete a luz do Sol
mas essa minha Lua
reflete junto seu calor
Hoje fui banhado
novamente por esse luar

Afastou o frio da solidão
Aqueceu a face cansada
Iluminou o cair da lágrima
Refletiu o alívio do sorriso
Me mostrou também sentir
minha falta

Nossa dança
segue ritmos diferentes
compasso desencontrado:
ela me banha lá de cima
eu a saúdo aqui de baixo

Sem estrelas cadentes
somente almas carentes

A distância entre nós
não é entre céu e Terra
É a distância entre dois peitos
que não se traça em uma reta

Quando ela não desce,
fervido em ebulição ascendo
e permaneço ao seu lado esquerdo
feito um mero ponto vermelho

Quando chegar, quero que me cubra
pois ainda sou sua estrela rubra
cuidando sozinha do nosso céu

Lua menina, Lua pequena
Me diga, pequena Lua:
posso te chamar de Helena?
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Enfim, 30...

Posted: 19 de janeiro de 2012 | Por Felipe Voigt | Marcadores: 5 comentários
Caro Felipe,

Enfim chegou aos 30... finalmente, hein! Me lembro bem quando virei trintão e sei como está se sentindo hoje. A gente sempre diz que não faz muita diferença, mas essas datas redondas sempre fazem repensar ciclos e ponderar inícios e términos. Agora mesmo, ao ler esta carta, sei que está aí, ainda sob efeito do furacão, sendo levado pela rajada de ar que te destelhou a vida. Natural ficar um tempo inerte até conseguir acostumar os olhos ao cenário que te cerca.

As dúvidas ainda te martelam, não sabe como será esta sua nova década. O que ela te aguarda? Será melhor do que a década passada? Será que haverá, de fato, uma nova fase? Mas também se vê hoje cercado por algumas certezas, o que te deixa mais seguro apesar de toda insegurança habitual.

O que posso te dizer daqui de onde te vejo? Que apenas siga focado, que não tenha medo de ser tão você, mas que também siga se reavaliando como fez nos últimos dois anos na casa dos 20. Realmente a vida mudou pra valer aos 28 e agora está na hora de começar a recolher o resultado que está brotando em vários terrenos adubados por tanto tempo.

Beba menos, tente se exercitar mais. Sinto muito hoje os efeitos dessa vida sedentária e conservada em cerveja. Acredite: um cansaço irá se abater sobre você em alguns anos e poderia ser diferente se apenas bebesse menos. Sei que bebida sempre foi uma companheira, mas nem sempre uma boa companhia. Não vai querer perder os melhores momentos da sua vida apenas porque estava bêbado demais para se lembrar.

Tente dormir melhor. Em nada vai te ajudar virar madrugadas adentro, dormindo duas horas por dia e acordando cansado. Quando chegar onde estou, verá que poderia ter dormido mais e adoraria poder dormir melhor na minha idade. Entendo que sua inspiração chegue durante as primeiras horas do dia, mas pode tentar se inspirar em outros períodos. Apenas busque sua inspiração nas fontes que tanto tem se banhado nos últimos meses. Seus melhores textos ainda estão por vir.

Conte com mais a ajuda de outras pessoas. Se permita errar mais e deixe de ter certeza de tanta coisa. Sei que é horrível quase sempre estar certo: um pouco de erro mais presente nas suas certezas te faria menos arrogante e menos inseguro. Sim: errar mais te daria mais segurança para aprender o que ainda não aprendeu e precisará saber quando chegar aqui. Ainda hoje eu gostaria de estar menos certo sobre algumas coisas...

É uma pena não poder te mostrar seus erros agora.

Infelizmente, as pessoas seguem não mudando. Continuam as mesmas, seguem apenas se adaptando. Mas aceite mais isso, exija menos daqueles que não farão diferença na sua vida e na vida dos que te cercam. Intolerância me trouxe problema demais e afastou a maioria dos que passaram pela minha vida. Aceite que nem todos chegam ao grau de compreensão da vida que tem hoje, nem mesmo você sabe qual é esse grau.

Sempre me pego a relembrar dessa minha época dos trinta anos e vejo que o que me fez continuar vivo foi seguir me reapaixonando e não desistindo do amor. Cá entre nós: quanto tempo achou que não poderia amar e ser amado pra valer? Por quantos anos afirmou que o único amor incondicional era apenas o amor materno? E olhe para você agora e me diga se não está amadurecendo esse conceito e sentindo que há, sim, amores que não impõem condições para existir?

Quando sentir que tudo está desmoronando, apenas se agarre ao sofá e não se deixe levar. Continue chorando, continue perdendo o ar e o fôlego e sinta aquele algo te morder e sugar a nuca. Mas não se deixe levar, não se perca muito. Se agarre, você tem elementos para se segurar. A única vez em que pensei acabar com tudo e todo esse sofrimento foi um grande lapso e me arrependo até hoje de ter realmente cogitado desistir de tudo.

Não desista de viver; apenas desista de viver sem amar, sem amor.

Desista de viver sem aquele amor que sentiu pela primeira vez e que te abriu os olhos para quem você é e pode ser. Vai por mim: você não conseguirá existir sem ele. Confie no que sinta, mesmo que por vezes sinta vontade de desistir de tudo. Você consegue, você agüenta e você sabe disso. Agora as certezas são quase incertas, mas uma hora tudo irá se encaixar. Me cantaram uma vez uma música que dizia que Roma não foi construída em um dia. Mas um dia você voará livre e em harmonia e acompanhado.

Seus livros serão publicados e serão importantes para muitas pessoas. Mas o que mais vai te fazer sorrir e continuar escrevendo é sentir que você é importante para algumas pessoas importantes para você. Muitos precisarão de sua ajuda e de suas análises tão particulares da vida, mas poucas pessoas realmente te farão se sentir único e um cara, de fato, foda. E você se sentirá cada vez mais estimulado a ajudá-las e irá aprender mais do que irá ensinar. Você já tem hoje essas pessoas: faça-as se sentirem assim, especiais e essenciais.

Tenho uma adolescente aqui me fazendo perder os cabelos! Mas é muito bom olhar para a cara da mãe dela e ver que ela não estava errada ao dizer que me queria em suas vidas neste momento. Ontem mesmo rimos lembrando dessa época, quando tudo ainda era apenas uma projeção e que o futuro chegou mais rápido do que pensávamos, apesar de um triste período que preferimos deixar no limbo do passado.

Essa é outra coisa essencial: deixe algumas mágoas para trás, não se recorde da dor que sentiu em alguns momentos enevoados da sua vida. Abra um quarto escuro, jogue esses momentos lá dentro e não se preocupe em lembrar onde a chave está.

Você sempre será um porto aportado em alguém. E esse alguém se aportará em você.

Respeite mais o silêncio alheio sem exigir longas e incessantes conversas. Espere um pouco, apenas ceda o ombro e depois ceda os ouvidos e por último empreste a voz. Isso não te fará um homem menos “você”, apenas irá ajudar outros a respirarem. Ainda precisarão te ouvir, ainda precisarão dos tapas pra acordar, apenas aprenda a identificar o momento. Leveza pode existir em pessoas densas. Lembre-se disso, apesar de saber que agora você já está aprendendo a esperar.

Sorria e faça sorrir. Converse e ouça. Veja e se mostre. Agora tenho ao meu lado a pessoa que me ajudou nisso tudo e ainda a sinto como a sentia antes dos meus trinta. Não há como te fazer sentir a sensação que tenho ao poder ainda colocar minha mão sobre seu peito e sentir seu coração se acalmando ao simplesmente conversar comigo. Queira isso para você. Queira muito isso para você. No final, é o que tornará a vida mais gostosa: ter olhos que te enxerguem e mãos que te acalmem.

Você está pronto.

Enfim: seja bem-vindo... espero que possa hoje me dar mais do que eu estou te dando. E obrigado por tentar: nós merecemos isso.

Um abraço e lembre-se de respirar mais,

Do seu amigo Felipe Voigt.
(de algum lugar do futuro)

PS: A sensação de chegar aqui e ver que tudo valeu a pena é indescritível. E se consegui te escrever isso agora é sinal de que você não fodeu tudo. UFA!
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O Papa precisa calar a boca

Posted: 10 de janeiro de 2012 | Por Felipe Voigt | Marcadores: 6 comentários
O que se espera de uma religião?
Que ela te ensine entender sua sociedade e seus indivíduos, incluindo você mesmo. Que ela te traga respostas, alívio, compreensão e acalento. Que te faça conviver com as diferenças e que saiba apreciar a individualidade do ser e do meio em que sobrevive e com isso te transformar em alguém melhor, mais tolerante, mais saudável.

E o que se espera de um líder religioso?
Que ele saiba conciliar os fundamentos de sua doutrina com os interesses sociais e atualizá-los. Que lidere os pensamentos de sua fé com coerência e sabedoria para se adaptar aos tempos atuais, sempre pautado no bem estar do indivíduo e da sociedade, sem deixar que um suplante o outro. Que enxergue os ventos da mudança e os acompanhe sem se distorcer.

O que leva, então, o líder de uma das maiores religiões do mundo a abrir a boca e dizer uma das maiores sandices que já ouvi na vida? Sim, veja o que o Papa disse sobre o casamento entre homossexuais:

O papa Bento 16 disse que o casamento homossexual é uma das várias ameaças atuais à família tradicional, pondo em xeque "o próprio futuro da humanidade".
Leia a matéria completa.


Ameaça o futuro da humanidade ou o futuro da religião como ele conhece?
Qual é, afinal, a função de um Papa? Representar uma igreja que prega o amor de um Deus, certo? E como esse amor pode ser tão radical e separatista? O que o catolicismo espera atingir e agregar quando seu líder diz coisas que vão de encontro e não ao encontro do que a sociedade vive e carece? Molda uma parcela da sociedade ao separatismo, à intolerância e ao repúdio aos que diferem. É errado!

Ele condena uma sociedade ao ralo com esse poder que não tem condições de usar. Isso é aterrorizante! O discurso de um Papa afeta diretamente a sociedade em que você vive. Ainda há quem leve sua prosa como lei divina e quando um Papa prega essa intolerância de forma até violenta, incita outros a agirem igual e a coisa cria eco, toma proporções assustadoras. Muita gente que te cerca vai achar que por ter sido o Papa a ter dito, é o mesmo que Deus falando e deverá acreditar sem questionar. E muitos agirão em nome desse Deus intolerante, separatista, xiita e arrogante que o atual Papa tenta pregar.

Esse é o mesmo Papa que atualizou a lista de pecados, imputando aos seus seguidores mais uma lista de coisas que terão de se confessar e se arrepender. Ao invés de tratar a sociedade com as particularidades que cada uma tem, apenas impões regras e sanções, nivelando todos os povos e culturas em meia dúzia de preceitos e pecados.

Como convencer um jovem a frequentar uma igreja que condena aquilo que ele olha como algo natural e que envolve amigos e parentes? Convença um jovem a freqüentar uma igreja que condena o seu irmão que namora um amigo seu. Diga a ele que é errado sua amiga namorar aquela sua prima. Pegue-o pelo braço e diga isso e o convença a se confessar, por exemplo, por viver nesse mundo pecaminoso em que homens amam homens e mulheres amam mulheres. Não, ele não irá se confessar por algo que ele não sinta ser errado.

As confissões na igreja estão caindo com veemência nas últimas décadas justamente por isso: não há acolhimento do indivíduo que destoa da doutrina. Ele é colocado como pecador que deve se perdoar e se redimir simplesmente por ser diferente? Como alguém que sente atração por uma pessoa do mesmo sexo deve se confessar pedindo perdão por amar diferente, mesmo sendo um amor igual? Há como qualificar e diferenciar o amor nesse caso? A igreja tem esse poder? O Papa tem esse dever? O papa não passa de um xiita! O Papa é um Malafaia!

Estamos vivenciando o começo de uma nova era onde a sociedade se compõe de fragmentos. Cada fragmento é uma minoria, um grupo, um pensamento coeso e que agrega seus pares para que possam viver sem que um ameace a existência do outro. Cada fragmento está se baseando em preceitos morais e sociais de bem-comum, sem que haja intolerância ou supressão dos direitos individuais daquele nicho, onde as minorias são coesas, se encontram para encontrarem forças e coexistirem sem máculas, dogmas ou paradoxos.

Haverá tempos de discórdia, mas teremos uma era de coexistência entre aqueles que antes eram renegados à tangente de uma sociedade que insiste em se rastejar para este novo milênio. Novos conceitos estão sendo criados. Conceitos de liberdade e de direito a existência. Conceitos que mostram que a religião, por ter sido criada pelo homem, é natimorta se não se adaptar e se atualizar. Nenhum preceito moral é impassível de mudança.

Mas confesso que tenho medo de discursos assim.

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A mulher da relação

Posted: 1 de janeiro de 2012 | Por Felipe Voigt | Marcadores: 2 comentários
Não havia o que a fizesse parar de rir.

Estavam no carro, seguindo para o trabalho dela em outra cidade, ele dirigindo e ela gargalhando pela noite anterior. Ele, o motivo da gargalhada, ria junto. Não tinha como não rir. Até esboçou estar emburrado, fez charme mas também cedeu. Quanto mais “bravo”, mais ela ria...

Ela o convidou para dormir em sua casa naquela noite, para que a acompanhasse na manhã seguinte. Um convite irrecusável e assim ele foi. Estavam na cama, conversando e começando a namorar. Antes, ele checou seus e-mails pelo celular. Ela continuava com o seu, checando suas redes. Tentou um chamego, ela respondeu mas continuava com o celular na mão. Assim, ele ligou a TV em um canal qualquer enquanto a esperava terminar sua rotina virtual. Ao vê-la colocar, finalmente, o celular de lado, ele virou-se buscando um beijo, mas ela logo pegou o controle e reclamou do canal em que estava. Passava algum programa de reabilitação emocional de celebridades. Ou coisa parecida. Assim ela passou a procurar algum canal que fosse do seu agrado.

Ele deitou-se de frente e calou-se. Alguns minutos depois, ela virou-se para ele e tentou o beijá-lo. Ele respondeu com ressalva. Ela percebeu e perguntou o motivo. Ele apenas levantou-se e foi para a cozinha. Ela não foi atrás, ficou na cama e logo foi para fora, acender um cigarro. Na cozinha, ele chorou e sentiu a ausência dela em procurá-lo para saber o motivo da sua chateação. Engoliu o choro e foi para fora e a indagou o porquê de não ter ido atrás dele. A resposta que ouviu foi que se ele estava chateado, o melhor seria deixá-lo digerir a chateação, mesmo não entendo o motivo pelo qual se chateou.

Voltaram pra cama em silêncio. Ele não agüentou e disse o motivo: estava ali, tentando namora-la e ela entretida em outras coisas que não ele. E quando se desentreteu, reclamou da TV, sem ainda percebê-lo ali do lado. O silêncio logo voltou e se quebrou com a risada dela.

- Meu Deus, você é a mulher da relação!
- O quê?
- É isso: você é a mulher da nossa relação! – ria ela, se sentando na cama e apoiando as mãos no rosto enquanto gargalhava alto.
- Nem é pra tanto, vai... – ele sorriu e sentou-se junto.
- Ficou todo magoadinho porque eu não quis te comer agora, que eu fui insensível, que não fui atrás de você chorando na cozinha por conta disso... Você é minha mulherzinha!
- É sim... vem cá que eu te dou um trato, minha gostosa - disse fazendo voz grossa e virando-se para ele, puxando-o pelos cabelos.
- Ah, é assim? Então vem cá e chupa minha buceta, então! – respondeu ele.
- Só se você não chorar mais porque eu não te trepei com você...
- É só me ligar no dia seguinte que eu deixo o chocolate de lado. Agora cala a boca e me beija...

De volta ao carro, ela seguia gargalhando lembrando da noite anterior, quando pela primeira vez na vida um homem chorou com ela porque ela não correspondeu aos carinhos dele. Ele estava carente e com saudade e apenas não soube esperar 10 ou 15 minutos. E ela ria disso, como se a visse refletida nele.

- Vem cá, minha princesa... – ela o puxou e o beijou ao chegarem ao pedágio da rodovia.
- Hoje vou te comer, mas antes me traga uma cerveja, sua gostosa – ela ria ao entrar no carro.
- Escuta, vou sair com umas amigas, mas quero te ver de banho tomado e todo cheiroso na minha cama quando chegar, viu? – seguia gargalhando ao voltar pra casa.

A gargalhada dela era gostosa e ele gostava do som da sua risada.
Mesmo sendo ele o motivo delas. Principalmente ele sendo o motivo delas existirem.
No rádio, uma seleção de músicas que ela escolhera. Sempre teve uma boa mão para achar as músicas certas e aplicá-las nos melhores momentos. The Chi-Lites cantavam "Oh Girl" e ela ria e cantava junto, olhando para ele:

- Oooohhhh girl... I'd be in trouble if you left me now!! - e sorria e olhava para ele e cantava de novo.

Ah: naquela noite, assim como na anterior, eles não treparam. Ele era o homem dela, mas também sua mulher. Eles fizeram algo além, não como homem-mulher, mas como seres únicos, interligados, conectados, sem se preocuparem com nomenclaturas, definições ou padrões. Não era apenas sexo, era algo mais. Não dá pra chamar de transa, de trepada, de foda, de relação sexual, de coito... Dois corpos em uma alma? Duas almas dividindo o mesmo corpo? Ultrapassava preceitos, era algo mágico, eram dois mas eram únicos, gozando e se amando e rindo de besteiras que você certamente não entenderá.

- HaHaHaHaHaHaHaHa... – seguia ela no carro e ele simplesmente amava o som daquela gargalhada.

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Chove pra caralho

Posted: 31 de dezembro de 2011 | Por Felipe Voigt | Marcadores: 3 comentários
O problema é quando chove
Quando chove aqui fora
deságua de dentro de ti

Chove tanto
que o adormecer acontece
tão logo o corpo amolece
pelo cansaço do desaguar

Teu deságue
não é fraqueza
Pois só deságua
quem muito represa

Teu cansaço
é da reincidência
onde tudo acontece de novo
velhos hábitos em novas vidas
velhas cartas em um novo baralho
Aquela mesma coisa
A mesma coisa de sempre
Caralho, caralho, caralho

Despeça-se hoje
deste ano que ainda
não se findou
Fatalmente ele nunca
se findará, enfim

Adeus agora, velho ano...
Tinhas tudo para ser
único e inesquecível
Tornou-te mais um na fila
dos padrões descartáveis
apenas

Mas por hoje desague
represe menos, deixe chover
Teu sorriso abrirá clareiras
de luz, de alegria, de viver
Um alívio em meio às nuvens
que por ora conduz
Isto não é tua vida
É apenas o pus
Elimina-o

E ao chover aqui fora
esta tormenta que cai de ti
lembre-se de respirar
pois tuas lágrimas
serão o amanhecido orvalho
deste teu novo despertar
Chore, sorria e repita
Caralho, caralho, caralho!

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Mundo ideal, mundo perfeito

Posted: 18 de dezembro de 2011 | Por Felipe Voigt | Marcadores: 16 comentários
“Hoje eu sei que não sou poeta
Tornei-me um pra escrever
e sonhar aquilo que sentia
Perpetuar o que sinto
E eternizar o que sentirei”



Mais uma vez, dormiu cansado de tanto chorar.

Era um cansaço estranho, não-físico, mas que quebrava o corpo em três ou quatro partes. As costas doíam, as pernas formigavam, os braços mal se levantavam e a sensação na nuca era de que algo o sugava as energias que restavam. Por vezes, durante a madrugada, se segurava com toda a força ao sofá, como se estivesse sendo arrastado pra fora dele. Se afogava nas próprias lágrimas, tentava respirar e não conseguia. Era tudo muito estranho. Muito estranho.

A sensação durava cerca de duas horas. Às vezes três. Logo depois, desfalecido e inerte, ele dormia. Um sono pesado, cansado mesmo. Era muito estranho e nunca entendeu o motivo disso acometê-lo dessa forma. Não havia bebido, teve dois dias bons naquela semana, não havia algo que o derrubasse assim. Talvez tivesse sido sorteado na roleta-russa do universo, vai saber?

Dormindo, ele não chorava. Dormindo, ele não sofria. O ar entrava e saia, as pernas relaxavam e as costas não doíam. E foi assim, dormindo, que ele acordou.

Acordou com a lambida do sol em sua cara. Não estava em seu sofá-leito companheiro de meses de sono, mas em uma cama de lençóis brancos. Uma porta na lateral do quarto permitia a entrada do sol e apenas uma silhueta se destacava nela. Foi quando a ouviu falando, se revelando ao entrar no quarto:

- Bom dia, meu amor!

Ao se jogar na cama, a silhueta tomou forma, rosto, olhos e boca e sorriso. Era ela. A sua pequena. Trajando uma camisola bege apenas, de algodão e que chega ao meio das coxas. Ainda sonolento, respondeu ao beijo dela e abriu melhor os olhos. Sim, era ela. Com os olhos mais lindos que conhecera, com a boca mais macia que havia beijado. E com o sorriso capaz de ofuscar o sol que ainda o lambia a cara.

- Acorda, menino bonito... preciso da sua ajuda hoje.

E se levantou, indo para o banheiro, tirando a camisola e ligando o chuveiro, não sem antes olhar para ele deitado na cama. Olhou por cima dos ombros e deu uma piscadela marota. Ao ouvir e ver aquilo, seu corpo estremeceu. Era ela, ali, de onde nunca deveria ter saído. Ele olhou ao redor e, mesmo sendo um ambiente diferente de onde estava, era conhecido. Ele se sentia acolhido em um lugar conhecido. Se levantou e foi atrás dela, no banheiro.

Encostou-se na porta e a admirou se banhando. Ela sorria, estava alegre e leve. Apenas o olhava enquanto se ensaboava com um sabonete vermelho. Comentou algo sobre o dia que teriam e ele sorriu junto. Fez um comentário sacana sobre o quão gostosa e linda ela era. Foi atingido por um jato de água e um comentário:

- Você é besta...

Pegou a toalha branca enorme ao vê-la desligar o chuveiro e a enrolou. Beijou sua nuca, tocou seus ombros ainda molhados e apenas suspirou em seu ouvido. Ela olhou para o lado, por cima dos ombros novamente, e sorriu para ele e voltou para o quarto. Ele jogou uma água no rosto, se olhou no espelho e estava tudo bem. Escovou os dentes, voltou a se olhar e foi para o quarto.

Ela estava de costa, ainda enrolada na toalha, passando creme nas pernas. A luz do sol invadia pra valer e deixou a cena poética. Ela era uma poesia pura, assim, sem maquiagem, nua, cheirando a frescor de pele. Sua pele tinha um aroma único. O modo como passava o creme era sensual. Porque ela não sabia que ele estava ali, a admirando. Era natural.

Não tinha como não querer aquela. Se aproximou, afastou os cabelos da nuca, a beijou ali e sentiu seus braços se arrepiarem. Mordeu levemente sua orelha, lambeu seu pescoço e a virou de frente para ele, desenrolando a toalha ao mesmo tempo. A beijou como se fosse a primeira última vez que a beijaria. Ela suspirou e gemeu ainda durante o beijo. Assim, a jogou na cama e começou a chupá-la. Não falou nada, não pediu nada, apenas a chupou ali, deitada, nua, com o sol a aquecendo e a revelando em cada gemido abafado, em cada suspiro represado, em cada contorção que seu corpo fazia involuntariamente.

Ela gozou e o puxou para cima, para beijá-lo. O puxou pelos cabelos e o beijou loucamente, o travando entre suas pernas. Um beijo descompassado, ainda sob efeito do gozo. Queria sentir seu sabor nele. Queria sentir ele. Ela simplesmente o queria. E ele nunca se sentiu tão querido.

Abraçados permaneceram em silêncio por alguns minutos, até ela recuperar o fôlego. Sorrindo, ela reclamou do cabelo bagunçado e segurou o rosto dele. Deu-lhe um beijo e se levantou. Se vestiu com um vestido colorido, bagunçou mais ainda o cabelo e o chamou para irem ao compromisso que tinham. Antes de sair, ele se sentou na cama e a puxou para perto. Beijou-lhe as mãos e pediu um abraço. Assim, sentado, ele ficava na altura dela. Ela o abraçou, acomodando sua cabeça em entre seus seios. Ele respirou, sorriu aliviado e fechou os olhos.

- Sabe que eu te amo, né, coisa feia? - ela disse

Isso fez uma lágrima cair de seu rosto e molhar o colo dela. Foi a última coisa que ele ouviu... não sem antes dizer àquela pequena morena enquanto a abraçava mais fortemente, colando sua alma na dele:

- Estou aqui, coisa linda...

Ao abrir os olhos, estava de volta em sua sala. Ainda era madrugada, tudo escuro em volta. Sentiu o perfume do creme dela, o gosto do sexo dela, a textura da pele dela, o som da voz dela, o calor do amor dela... A sala era um sonho, mas o quarto era uma realidade.

Ele ficará bem.

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Em busca da capa perfeita

Posted: 13 de dezembro de 2011 | Por Felipe Voigt | Marcadores: , 4 comentários
Pois bem: estou terminando de editar, de forma independente mesmo, um livro com meus poemas. Muitos já os leram aqui no blog, mas no livro terá maioria inédita. E essa porra toda enche o saco pra caralho! Correr com registro, com diagramação, escolher a ordem dos poemas e tudo mais... Sério: chega a desanimar e querer mandar tudo pra casa do caralho. Até porque o medo de ninguém comprar algo escrito por você é o que mais retrai. Ler por aqui é fácil, basta clicar no link e pronto. Mas se dispor a pagar por algo meu é algo que me deixa receoso.

Agora estou na fase da capa.


Sempre gostei muito desta pintura do Denis Peterson acima. A foto fala mais que laudas e páginas de texto. O cansaço exposto, a desconstrução social, a degradação moral... Ele está cansado. De tudo. Da vida, dele mesmo, dos outros. Não está deitado, descansando. Está caído, sem forças. Muitos o olharão como vagabundo, não entenderão seus motivos de estar ali, jogado... E ele não quer olhares de piedade, apenas precisa cessar o cansaço. E o fato de ser uma pintura e não uma foto só transforma ainda mais a imagem em poesia pura. O mesmo acontece com a figura abaixo. Elas falam sozinhas, sem legendas. É de uma sensibilidade rara encontrar pinturas assim, que ultrapassam o real e o surreal. Elas existem sozinhas, independente do que acharão delas. O cara na foto acima sou eu. Na abaixo também.


Entrei em contato com o artista e por ora não tenho condições de pagar o valor que ele pede para usar sua pintura. E olha que ele foi camarada e sacou que era uma publicação independente e colocou um valor baixo para um trabalho com essa qualidade. Apenas não consigo agora, outro dia conseguirei. Porque ele é foda - clique e veja se estou errado!

Sendo assim, me indicaram fazer uma foto na mesma linha e me usando como personagem. Não fico confortável com a ideia de ter um livro meu com minha foto na capa. Pareceria capa de disco – sim, ainda uso “disco” ao me referir aos álbuns lançados por cantores e bandas. Como não sou artista, me botar na capa seria egocentrismo demais, mais até do que meus próprios poemas.

Enfim: o que quero com tudo isso? Que você me ajude, caralho!

Conhece alguma fotógrafa? Um fotógrafo? Que tenha a sensibilidade de captar o que vi nessas figuras e reproduzir uma com a mesma emoção e poesia? Você é um artista da fotografia e tem algo parecido? Quer fazer uma parceria comigo? Te pago uma cerveja depois... pra dividi-la comigo.

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A casca da lichia

Posted: 5 de dezembro de 2011 | Por Felipe Voigt | Marcadores: 2 comentários

Sentado no sofá com uma bandeja de lichia ao meu lado. Geladas, ajudam a amenizar o calor da noite de domingo. É dezembro e o bom de morar no interior é ter acesso a elas de forma mais fácil. É uma boa fruta, que te cativa a conhecê-la ao olhá-la. A cor quente da casca contrasta com o branco cândido da fruta. É daquelas frutas únicas, que você nunca viu igual.

Com um cacho nas mãos, retiro uma. E antes de abri-la, me pego pensando nesse contraste que a lichia é. Sua casca é dura, rígida, áspera. Para abri-la, é preciso jeito e um grau de paciência ou a machucará. Não pode ir com muita sede, pois a casca pode se romper de forma muito incisiva e o conteúdo ficará prejudicado, vazando pelos dedos e sem poder consumi-lo com o mesmo torpor. E sempre há o risco de ter os dedos feridos com essa complicada casca que a cerca.

Mas também é preciso persistência e força senão encontrará outra pele por baixo da casca, ainda mais fina e frágil, mas que continuará a preservar o conteúdo. Ao se retirar a parte dura com muita leveza, a segunda pele se mostrará como uma nova barreira ainda mais complicada de se ultrapassar sem machucar o conteúdo.

Pois a lichia deve ser degustada plenamente, mesmo que no processo de abertura, machuque um pouco seu conteúdo. A forma de sorvê-la deverá ser com muita vontade, consumindo-a em uma bocada que quase a engole totalmente, fincando o dente até o caroço, sem medo ou receio ou amarras. Mas há que opte por mordiscá-la aos poucos, sem cravar completamente os dentes, sugando e mastigando pequenos pedaços até que ela se desfaleça nas mãos.

Muitos desistem de consumi-la, de sorvê-la, de degustá-la, de adocicar-se com seu conteúdo. Desistem pela dificuldade de abri-la. Muitos alegam não saberem ou não precisaram e optam pelas outras frutas de mais fácil consumo, onde suas cascas são rasas, superficiais e leves, o que facilita o acesso a poupa. São frutas comuns, que em qualquer caixote se encontra várias de vários tipos mas sempre iguais no consumo.

A lichia não. É única, exige dedicação, precisa de atenção e paciência. Que se ignore o visual áspero e rígido para provar o mais doce sabor e uma sensação de raro sabor único. Mas frequentemente é renegada, a ponto de perder o vivo do vermelho de sua casca, que com o tempo se transforma em uma cor negra e apagada. Mas o conteúdo segue o mesmo, esperando para ser, enfim, o alimento de uma boca sedenta. Sedenta daquele sabor raro e único, que só a lichia pode dar. É um sabor que nenhuma outra fruta comum irá proporcionar. Essas outras frutas até matam algumas sedes, só a lichia sacia e preenche.

Diferenciada pelo seu conteúdo; escravizada por sua casca.
A lichia é sua própria antítese.

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Por falar em saudade “não-sentida”...

Posted: 27 de novembro de 2011 | Por Felipe Voigt | Marcadores: 2 comentários

Confesso que não entendo esse estranho hábito que alguns cultivam de tentar matar a saudade que sentem. A renegam, desdenham sua existência, não permitem sua presença e se retiram de situações que a alimentam.

Não falo de qualquer saudade. Me refiro àquelas únicas, vividas e sentidas uma única vez na vida. Aquela que torna as demais apenas meras lembranças. Aquela saudade que faz você agir sem pensar, pois a verdadeira saudade não racionaliza. Onde há ponderação, onde há excesso de discernimento, não há saudade plena. Sua plenitude depende da inconseqüência, do medo, do exagero, da urgência.

Porque as piores saudades não são aquelas que duram horas e dias e depois acabam. As piores são as que te consomem longos minutos de intensa memória ao longo da vida. Seja em um supermercado revisitado, em uma rua repassada, um ambiente reconhecido, uma lembrança remexida. Ali você recorre aos beijos, aos toques, às trocas, às risadas, às incertezas e às promessas não-cumpridas pelo tempo que deixou de existir. O tempo inexiste, a intenção e a vontade não.

Mas os minutos logo se cessam pois a não permissão dessa saudade fará com que aquele que a sente recorra a distrações para fingir que ela não existe. O olhar vago se dissipa num piscar duro e num chacoalhar de cabeça, para que as lembranças voltem àquela gaveta do coração, de onde “nunca deveriam sair”. Mas saem, tem vontade própria, são independentes...

A saudade reside nos detalhes que apenas quem a sente é capaz de notar. Se tornam livres ao menor sinal de um cheiro que resgata noites intermináveis de cumplicidade. Se incendeiam - sem se queimarem - ao menor refrão de certa música ouvida durante o trajeto casa-trabalho.

Assim, a saudade se disfarça para ser aceita sem repúdio. Muitos nomes a saudade ganha para que possa existir sem medo, sem reticência. A trajam de preocupação, de culpa, de crueldade, de indiferença, de carinho, de amizade... Com isso, o “não posso sentir” se torna menos presente e o “sentir” mais permitido. Mas não menos perigoso.

Tentar matar uma saudade é o mesmo que a torná-la um sentimento imortal. Quanto mais a renega, mais ela se torna cruel e aparece onde você menos espera. E é por isso que quando você menos pode senti-la é onde ela mais vai surgir. Porque você pode mentir pra si por alguns dias, meses, anos... mas nunca conseguirá mentir para ela, pois ela te conhece. Ela é você.

O problema do “não-sentir” a saudade é que acham que, ao negá-la, ela não existirá.

Negar-se sentir essa saudade é como deixar de respirar para negar a existência do ar.
Funciona... por alguns momentos curtos, apenas. Logo o sufoco aperta e você se pega respirando novamente, outra vez. E se odiando por isso, de novo. Então o que fazer?

Apenas respire... e deixe alguém respirar também.

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Pobre prosa sóbria

Posted: 24 de novembro de 2011 | Por Felipe Voigt | Marcadores: 3 comentários
A vontade de me calar me fez recorrer à escrita. Pensei em escrever um poema, mas iria me repetir de novo, novamente. Tentei recorrer ao conto, mas não seria publicado. O desabafo muito implícito deixaria o silêncio mais ensurdecedor ainda. Apenas abri uma página branca e passarei a manchá-la com palavras. Sem intenção de ser lógico ou racional. Sem pretensão de ser bonito ou genial. Apenas para manchar o branco virginal da página. Às vezes funciona, muitas vezes não.

Já não sei aonde mais ir ou ao que recorrer. Bares e braços se fecham, bocas se calam, beijos se cessam, amores se esvaem. Há sempre alguém mas nunca ninguém. Nunca um alguém, aquele alguém que ninguém sabe apesar de saberem. Eu não sei mais. Sei que sei de algo, algo que sinto, mas sinto que não compreendo...

O amor não traz plenitude, não devolve a harmonia. Amor não traz paz nem traz distração. Se busca por isso, deve-se ter alguém que não te ame ao teu lado. Amor machuca, confunde, arde e consome. Amor não se ausenta, não se cala, não permite a distância. Errado quem pensa que amor é deixar ir. Amor requer presença, mesmo que apenas do lado de dentro e não ao lado. Deixar ir é ser covarde, assim como aprisionar é acovardar-se.

Amar permite a ausência mas não a inexistência. Amar tolera a concessão mas não a omissão. Triste daqueles que optam por amar entre aspas.

É segurar o peso através de arames escaldantes e farpados, que envolto nas mãos apenas fazem doer e sangrar. Mas o peso vale a pena ser suportado. Agarra-se com as mãos mas segura-se com a alma. A pele mal sangra, mas a aura se ensangüenta. E a lágrima apenas ilumina o caminho do sorriso por não ter desistido quando o mundo todo já teria sucumbido.

Quando se alcança um mínimo de harmonia interna, o estado de vigília passa a ser menos penoso... É uma busca pela normalidade perdida. A harmonia, a vigília, o velar, o zelar... conceitos que nunca se dissipam, tampouco se modificam. É o velar de almas sem velas, navegando no escuro da saudade, atingidas pela tormenta do desejo.

Os momentos de solidão serão aplacados se suportados.

Apenas se cale... calar-se não é deixar de sentir, nem apenas ressentir.
Apenas se cale. Zele pelo velar, vigie o sentimento.
Mas quem vigia o vigilante?
Quem zela o zelador?
Quem?
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